O juiz percebeu que os recursos, que poderiam afetar a decisão, constituíam uma lei que violava a justiça

Ex-major Sergio Roberto de Carvalho preso na Bélgica, sob julgamento por tráfico de drogas (Foto/Arquivo)

O tribunal de Campo Grande condenou o ex-major Sergio Roberto de Carvalho, conhecido como “Escobar Brasileiro”, ao pagamento de multa em ação em que pedia indenização por danos morais e para impedir que veículos de imprensa usassem o apelido. Após detectar na petição inicial uma “injeção imediata” oculta, ou seja, um comando oculto para tentar influenciar a leitura do processo por meio de um sistema de IA (inteligência artificial), o juiz aplicou a multa.

Um juiz de Campo Grande condenou o ex-major Sergio Roberto de Carvalho ao pagamento de multa de R$ 10 mil após identificar uma ordem oculta denominada “injeção imediata” em um pedido inicial de indenização por danos morais. Texto invisível inserido em fonte branca tentou influenciar sistema de inteligência artificial em tribunal superior. O escritório atribuiu a obra a um ex-funcionário e disse que o conteúdo foi localizado em 28 petições.

A decisão, datada de 19 de maio, foi assinada pelo desembargador Renato Antonio de Liberali, da 11ª Vara Cível de Campo Grande. O juiz percebeu que a inserção do comando oculto constituía uma lei que violava a dignidade do julgamento e aplicou multa de 10% sobre o valor da causa, que era de R$ 100 mil, o que corresponde a R$ 10 mil.

O juiz Pelzl e Brandolis Advocacia determinou o envio de ofício à OAB-MS (Ordem dos Advogados do Brasil-MS) para apurar a conduta de advogados do escritório e supostos ex-associados, que o escritório responsabiliza por inserirem “injeções pontuais”. Segundo o juiz, qualquer responsabilidade dos profissionais deve ser apurada de forma específica.

O juiz também aprovou a desistência da ação solicitada pelo escritório, após a descoberta da “injeção imediata”.

Segundo a sentença, o texto oculto foi inserido nos títulos de todas as páginas da petição preliminar e o tribunal superior possui ordens que visam influenciar a análise final do sistema de IA (inteligência artificial). O juiz disse que o despacho buscou facilitar ou direcionar positivamente o recebimento do recurso, embora não tenha surtido efeito imediato no julgamento do caso em primeira instância.

Para o juiz, o ponto crítico foi o caráter “oculto/manipulativo” das instruções, que foram inseridas em texto invisível, em fonte pequena e branca, para tentar fazer com que alguns motores de IA favorecessem uma das partes.

A decisão registra que, embora o TJMS (Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul) não utilize análise automática de IA em primeiro e segundo grau, tais ferramentas existem em tribunais superiores, como o STJ (Superior Tribunal de Justiça).

No topo da página, o comando oculto é descoberto ao passar o cursor (Arquivo/Reprodução).

A defesa de Carvalho alegou que o comando foi colocado por um ex-funcionário do escritório, sem aprovação dos advogados responsáveis, em modelo de documento que já foi reaproveitado. Os advogados disseram ter identificado reproduções do mesmo “prompt” em 28 processos e afirmaram ter apresentado declarações pedindo que o conteúdo oculto fosse ignorado.

O juiz, porém, entendeu que a conduta deveria ser reprimida. Ao mesmo tempo, destacou que, devido ao CPC (Código de Processo Civil) e ao estatuto, as multas por ato que atenta contra a dignidade da justiça não podem ser aplicadas diretamente aos advogados no mesmo caso. Portanto, a proibição foi imposta ao autor, ou seja, Sergio Roberto de Carvalho.

do outro lado – Uma nota enviada com antecedência Notícias de Campo GrandeOs advogados Lucas Fernandes Nogueira Brandolis e Matheus Pelzl Ferreira alegaram que o conteúdo foi inserido por um ex-associado sem o conhecimento ou aprovação dos profissionais.

Os advogados afirmaram ter lançado uma auditoria interna, que identificou repetição de conteúdo oculto em 28 petições. Eles disseram que relataram o incidente e pediram que os documentos em questão fossem ignorados.

Os advogados também alegaram que o texto oculto se referia a questões relacionadas a recursos ao Superior Tribunal de Justiça, como admissibilidade de recursos, distribuição ao ministro e súmulas do STJ (Superior Tribunal de Justiça) e do STF (Supremo Tribunal Federal). Contudo, as petições que continham o conteúdo foram encaminhadas ao juízo de primeiro grau.

Para o escritório, essa assimetria reforça que não há tentativa de manipulação de casos específicos.

o acusado – O ex-major da Polícia Militar de Mato Grosso do Sul Carvalho foi identificado por investigadores europeus como o líder de uma das maiores estruturas internacionais de tráfico de cocaína da última década.

Carvalho foi demitido da MS Corporation em 2018. Já havia sido condenado a 15 anos de prisão estadual em 1998 por tráfico de drogas e, posteriormente, por usar “Orange” em uma transação milionária. Ele foi preso na Hungria em 2022 e extraditado para a Bélgica.

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