O que começou como uma necessidade familiar tornou-se uma ferramenta que ajuda milhares de pessoas em todo o mundo. O personagem principal é Guadalupe Turim (23), um estudante argentino de engenharia da computação que criou Ícones.arg para melhorar a comunicação de sua irmã autista, que hoje já conta com milhares de usuários em diversos países.
A irmã de Guadalupe, Juli, está por trás do projeto. Devido aos seus problemas cognitivos, você precisa de recursos visuais para compreender situações do dia a dia, como uma consulta médica, uma viagem ou qualquer mudança na rotina. Durante anos, a família criou à mão sequências de imagens e pictogramas para prever o que aconteceria e ajudar a aliviar a ansiedade.
Foi então que a Guadalupe decidiu transformar esta experiência numa solução tecnológica. Ele percebeu que as ferramentas existentes eram inflexíveis ou muito complexas e começou a desenvolver uma plataforma gratuita que permitisse a criação de histórias sociais de forma rápida e personalizada. Em diálogo com Para Ti, a jovem nos conta os detalhes desse projeto que mudou sua vida.
-Como surgiu a plataforma Pictogramas?
-A plataforma nasceu de algo cotidiano: Vi que a mamãe demorou muito para montar stories sociais com fotos e pictogramas para a irmã Júlia. Cada vez que acontecia uma situação inusitada, como uma consulta médica, uma viagem, uma mudança de rotina, minha mãe montava à mão uma história social: Procurei ícones e imagens um por um na Internet, baixei e organizei em um documento Word. Foi um processo lento.
As ferramentas existentes não eram úteis, não eram muito flexíveis, não eram muito personalizáveis ou tinham tantas funcionalidades que se tornavam difíceis de usar. Vi essa necessidade internamente e pensei que poderia fazer algo a respeito.. O que começou como uma solução para a minha família já chegou a mais de 35 países.
-Como as pessoas reagiram quando souberam dos pictogramas?
-O impacto foi muito positivo e, para ser sincero, nos surpreendeu. Recebemos muitas mensagens, principalmente de famílias. Muitos disseram que antes de passarem pelo mesmo processo manual que minha mãe fazia, imagem por imagem, e que a plataforma facilitou para eles, agora podem criar suas histórias sociais de forma rápida e fácil. Também Ouvimos falar de terapeutas e professores que incorporaram isso em seu trabalho. A plataforma conquistou mais de 8.000 usuários. Nunca esperávamos isso.
– Você já pensou que a tecnologia facilitaria a comunicação com Juli?
-Quando comecei a estudar engenharia da computação, parte dessa decisão teve a ver com isso: sempre pensei na tecnologia como um meio de melhorar a vida de quem precisa.
É importante esclarecer que a plataforma não promove a comunicação da própria Júlia, mas sim a sua compreensão. Ela se comunica com poucas palavras, sabe pedir o que quer. É muito difícil para você compreender situações novas ou incomuns. É aqui que entra a imagem: ela permite antecipar um evento futuro, vê-lo representado visualmente antes que aconteça e abordar a situação com muito menos ansiedade.
E ao longo do caminho aprendi que a tecnologia por si só não é suficiente. É uma ótima ferramenta, mas tem que acompanhar as pessoas: conexão, empatia, trabalho terapêutico, família. A tecnologia pode abrir portas, mas deve haver pessoas dedicadas do outro lado.
-Graças a este projeto você foi reconhecido pelo legislador porteña, como foi esse momento?
– Foi muito encorajador. Em abril, como parte do Mês de Conscientização sobre o Autismo Pictogramas Arg foi reconhecido pela Comissão Legislativa de Deficiência de Porteña pelo seu trabalho ao longo dos anos (conscientização, compartilhamento nas redes sociais, atividades comunitárias abertas para pessoas neurodivergentes) que fazemos com minha mãe, Sônia Castellanos. Foi graças ao Yoru, (@cronicasautistas) que contribuiu para esse reconhecimento e estamos muito gratos a ele.
Consideramos isso um sinal de que estamos no caminho certo. Não como ponto de chegada, mas como impulso para continuar. Continuar a criar, continuar a confiar no projeto, continuar a trabalhar para que mais pessoas com deficiência possam participar plenamente na sociedade. Quando algo que nasce de uma necessidade familiar recebe esse tipo de reconhecimento, você percebe que a necessidade que queria resolver era muito maior do que o seu entorno.
– Que dificuldades enfrenta hoje uma pessoa com deficiência na esfera educacional e social?
-Hoje, as pessoas com deficiência enfrentam grandes desafios no acesso à igualdade de oportunidades de educação, lazer, emprego e vida social. Estas barreiras afectam profundamente a sua qualidade de vida e limitam as suas oportunidades de participar plenamente na sociedade.
Por exemplo, a vida social é essencial para o desenvolvimento e o bem-estar emocional. No entanto, muitas pessoas com deficiência percebem desde cedo que os seus espaços de encontro e participação são reduzidos, em muitos casos limitados ao seu ambiente familiar. Esta situação pode levar ao que hoje se chama de “solidão indesejada”, um problema que afeta cada vez mais pessoas já na infância e na adolescência.
Adicionado a ele elevado risco de abandono escolar devido a dificuldades de acesso, falta de apoio adequado e barreiras ainda presentes no sistema educativo. Se as trajetórias educativas inclusivas não forem garantidas, a desigualdade agrava-se e as oportunidades de autonomia e participação social no futuro são limitadas.
É, portanto, fundamental continuar a promover políticas públicas, práticas inclusivas e espaços acessíveis que garantam o pleno exercício dos direitos e nos permitam construir uma sociedade mais inclusiva.
-Como foi a criação do livro “Jornada e Coragem”?
-O livro Viaje y Couraje nasce de uma experiência que sonhamos há muito tempo. Em família, tínhamos medos e incertezas, mas também uma vontade avassaladora de viajar juntos. Muitas vezes as famílias de pessoas neurodivergentes adiam este tipo de experiência por medo das dificuldades que possam surgir ou pela falta de sugestões disponíveis.
Para isso levamos em consideração cada detalhe: horários, locais, momentos de descanso e as necessidades de cada um, tentando fazer da viagem uma experiência agradável, carinhosa e possível. Este processo nos ensinou que com planejamento, empatia e flexibilidade podemos criar experiências significativas e memoráveis.
Foi assim que nasceu o livro, que Não só conta nossas experiências pessoais, mas também tenta acompanhar e inspirar outras famílias.. Viaje y Courage oferece ferramentas, ideias e um guia prático para pensar e organizar viagens acessíveis com pessoas neurodivergentes, promovendo o direito à diversão, à recreação e à participação plena.
– Quais são os projetos futuros do seu projeto?
– Temos muitos projetos em mente, porque acreditamos profundamente que a inclusão é uma construção coletiva que se consegue trabalhando e coordenando com outros. É por isso que desenvolvemos propostas em conjunto com profissionais e organizações que têm uma visão comum para uma sociedade mais acessível e participativa.
Agora mesmo Promovemos atividades recreativas flexíveis concebidas especificamente para pessoas neurodivergentes, mas abertas a toda a comunidade.. Esforçamo-nos por criar espaços de encontro, partilha e fruição, ao mesmo tempo que promovemos valores relacionados com a cidadania global, a sustentabilidade e o cuidado com o ambiente.
Também Trabalhamos em processos de formação e aconselhamento laboral, acompanhando cada pessoa com base nos seus interesses, competências e pontos fortes. Acreditamos que é importante criar oportunidades de trabalho que respeitem a singularidade de cada pessoa. Além disso, planejamos adicionar novos recursos ao site para melhorar a experiência do usuário.






