Os líderes relataram perda de direitos, dificuldades de acesso e ameaças aos seus meios de subsistência
“Racismo ambiental. Tem nome.” Essa foi a frase proferida por um participante de audiência pública realizada em Coramba, no Pantanal de Mato Grosso do Sul, para discutir o Projeto de Concessão da Hidrovia do Rio Paraguai. Ao longo do encontro, lideranças indígenas, moradores de comunidades tradicionais e pesquisadores relataram dificuldades na manutenção das atividades tradicionais associadas aos rios e biomas, devido à perda de acesso à água.
Audiências públicas em Coromba reuniram lideranças indígenas e comunidades tradicionais para denunciar o racismo ambiental no projeto da Hidrovia do Rio Paraguai. Os relatórios sublinham que as populações vulneráveis concentram os danos dos grandes projectos, como a perda de acesso à água e as ameaças à cultura, enquanto os benefícios económicos são desiguais. Os pesquisadores ressaltam que a conservação deve contar com a participação dessas pessoas, essencial para a preservação do bioma Pantanal.
As declarações destacaram um conceito que, embora ainda pouco conhecido fora dos meios académicos, é utilizado para descrever uma situação em que populações historicamente vulneráveis concentram os efeitos negativos das políticas públicas e dos grandes projectos, enquanto os benefícios económicos e sociais são distribuídos de forma desigual.
Durante a audiência, uma das falas mais interessantes foi de Dalva María de Souza Ferreira, 79 anos, uma das lideranças Guato mais antigas da Aldeia Uberaba, localizada na Ilha Insua, a 350 quilômetros de Coramba. A comunidade está localizada na fronteira do Brasil com a Bolívia e tem o rio Paraguai como principal porta de entrada. Dependendo das condições do rio e da embarcação utilizada, a viagem pode durar até 40 horas.
“Não tem como sair dali nem. É por rio. Ou por avião”, relata, destacando dificuldades de acesso aos serviços públicos, sobretudo ao sector da saúde. Devido à mobilidade reduzida, ele teve que ir até Karumba para tratamento.
Ao mesmo tempo que protegia a conservação das águas do Pantanal, ele vinculou a proteção do Rio Paraguai à sobrevivência de seu povo.
“Sem água não somos nada, sem o nosso rio não somos ninguém”, declarou.
Para isso, qualquer discussão sobre intervenções fluviais deve considerar os laços históricos, culturais e econômicos que os povos indígenas mantêm com a terra. Doña Dalva Aldea expressou preocupação com o impacto das mudanças ambientais nas futuras gerações de Uberaba.
“Eles não olharam para a aldeia para ver como vivemos, como sobrevivemos”, disse, referindo-se ao processo de concessão da hidrovia.
A líder da comunidade tradicional Antonio Maria Coelho, Edeltrudes Correa de Oliveira, 55 anos, conhecida como Dona Edil, também prestou depoimento. Ele mora no bairro de Albuquerque, zona rural localizada a 45 quilômetros de Coramba. Donna Edil relata que os moradores estão cercados por empresas mineradoras, siderúrgicas e ferroviárias.
Segundo ele, a comunidade enfrenta problemas relacionados à redução de fontes de água, ao aumento do fluxo de caminhões, ao impacto na saúde após o fechamento do único posto de gasolina e às dificuldades na escolarização das crianças, que convivem com a falta de água e a poeira do minério e do carvão.
Os moradores convivem diariamente com o tráfego intenso de caminhões perto de suas casas, tornando inseguro caminhar pelas ruas laterais da comunidade.
“É como se não estivéssemos aqui”, lamentou o morador.
No Paraguai-Mirime, a carcereira Jocelin da Silva Camargo, 39, não sabia da audiência e, por isso, não compareceu à reunião. Ainda conhece bem a luta para sobreviver. Segundo ele, os últimos dois anos marcaram a incerteza sobre o futuro da comunidade, que depende da pesca e da coleta de iscas para sobreviver.
Jocelyn disse que os moradores foram impedidos de entrar em determinadas áreas do rio Paraguai-Mirim e enfrentaram ameaças relacionadas à criação de um parque na área liderado por uma ONG.
“Tínhamos até medo de sair. Onde quer que fôssemos, éramos forçados.”
Mãe de seis filhos, ela diz que a perspectiva de perder o acesso ao território gera uma ansiedade constante.
“Pensei: o que vai acontecer conosco? Vivemos disso. Não tenho para onde ir.”
Após mobilização e entidades da comunidade e apoio do MPF (Ministério Público Federal), os moradores foram informados de seus direitos e entenderam que poderiam morar na área, cuja ocupação é regulamentada pelo sindicato, sem serem impedidos de pescar ou utilizar o rio, que também faz parte da área sindical. Segundo moradores, as placas de alerta anteriormente instaladas no local foram retiradas.
“Foi uma luta dura. Se tivéssemos abaixado a cabeça, teríamos saído daqui.”
A palavra- A audiência foi realizada no dia 5 de junho em iniciativa popular e os depoimentos ainda ressoam Para a pesquisadora e mestre em saúde pública Fran Paola, o racismo ambiental engloba os processos que tornam os povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, comunidades tradicionais e outros grupos socialmente vulneráveis os mais expostos aos danos ambientais e sociais devido a decisões tomadas sem a sua participação efetiva.
Engenheira agrônoma e integrante da CONAQ (Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas) e da Aliança Científica Antirracista, Fran também é pantaneira e diz que essa população convive muitas vezes com poluição, degradação ambiental, perda de acesso aos recursos naturais e influencia diretamente decisões públicas com pouco impacto em seu território.
“Esses efeitos podem ocorrer por iniciativas instaladas em territórios tradicionalmente ocupados ou por meio de leis adotadas pelo Estado que não levam em conta a vida e o modo de vida dessas comunidades”, explica.
Como exemplo, o pesquisador cita a chamada política de “cota zero” implementada em Mato Grosso, que restringe o transporte de peixes da bacia do Pantanal. Embora tenha sido apresentada como uma medida de conservação ambiental, ele avaliou que a norma teve profundas consequências para as comunidades ribeirinhas e colônias de pescadores.
“Não se está apenas a limitar o acesso ao rio. Está-se a limitar a reprodução da vida social, cultural e económica daquela comunidade. Há uma fissura social e política que precisa de ser considerada e reparada”, disse.
Segundo Fran Paula, a pesca, além de representar uma atividade econômica para esta população, está ligada à alimentação, à transmissão de conhecimentos entre gerações e à própria identidade coletiva da comunidade.
Na avaliação do pesquisador, muitos dos conflitos observados atualmente no Pantanal vão além das questões ambientais e envolvem disputas territoriais e reconhecimento de direitos das populações que ocupam esses territórios há gerações.
“Estamos a falar da perturbação de estilos de vida associados à identidade sociocultural desta população. Há implicações para a soberania alimentar, a cultura e a identidade destas famílias”.
Conservação sem humanos – A pesquisadora critica a abordagem que considera a proteção ambiental incompatível com a presença humana, referindo-se ao que aconteceu recentemente na região do rio Paraguai-Mirim, onde placas instaladas por uma ONG (organização não governamental) proibiam a pesca em determinados locais e criaram medo entre os moradores.
“É uma perspectiva errada pensar em conservação sem pessoas. Existe um conceito colonial de meio ambiente que considera apenas a fauna e a flora, ignorando a população que vive e cuida dessas áreas”, afirmou.
Segundo ele, as comunidades indígenas, quilombolas, ribeirinhas e pantaneiras desempenham papel fundamental na conservação do Pantanal e de outros biomas brasileiros.
“Vocês têm dois projetos importantes para a conservação do bioma. De um lado, a proteção da fauna.
Fran Paola argumenta que a solução passa pelo reconhecimento dos direitos territoriais e pela participação efectiva das comunidades nas decisões que afectam os seus meios de subsistência.
“Este não é um conflito entre natureza e sociedade. É um conflito territorial. É preciso discutir como garantir áreas para a reprodução da fauna, mas também para a reprodução dos meios de subsistência das comunidades ribeirinhas e pantanosas.”
Patrono do Pantanal- O pesquisador destacou que pesquisas realizadas em diferentes regiões do país indicam que as áreas ocupadas por povos e comunidades tradicionais são as mais protegidas.
Ele cita iniciativas de pesquisa e monitoramento como o MapBiomass para enfatizar que essas populações desempenham um papel estratégico na conservação ambiental.
“São essas populações que monitoram o progresso do desmatamento, dos incêndios e de outros estresses na região. Elas fornecem serviços ecossistêmicos fundamentais para a conservação do bioma”.
Receba as principais notícias do estado via WhatsApp. Clique aqui para acessar canal Notícias de Campo Grande E siga-nos mídia social.







