Embora a proposta permaneça fora da pauta da Câmara, o desmatamento avança e pressiona os recursos hídricos do MS.

Vista geral do Cerrado, caracterizado por vegetação de savana (Foto: Prakash/Semadesk)

O Cerrado ocupa 23,9% do território brasileiro, num total de 2 milhões de km². O bioma fornece algumas das principais bacias hidrográficas da América do Sul e é considerada a savana mais rica do mundo. Ainda assim, permanece sem proteção constitucional específica no país. Há 16 anos, a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) 504/2010 tramita na Câmara dos Deputados no Congresso Nacional sem votação no plenário.

O Cerrado, que ocupa 23,9% do Brasil e 62% do Mato Grosso do Sul, permanece sem proteção constitucional específica. A PEC 504/2010, que inclui o bioma como patrimônio nacional, está há 16 anos sem votação no Congresso. Com apenas 8,21% das áreas protegidas e mais de 50% da vegetação original degradada, os investigadores alertaram para os graves impactos hídricos e ambientais, enquanto as organizações pressionam por propostas para avançar.

A proposta altera o artigo 225 da Constituição Federal para incluir o Cerrado e a Caatinga entre os biomas considerados patrimônio nacional, o que já está confirmado para Amazônia, Mata Atlântica, Serra do Mar, Pantanal e áreas costeiras. A PEC já foi aprovada no Senado Federal e passou por comissão especial da Câmara, mas aguarda inclusão na pauta do plenário para dois turnos de votação.

Segundo a assessoria de imprensa da Câmara Federal, a proposta foi aprovada na comissão especial da Câmara e está pronta para discussão no plenário. No entanto, nada pode ser dito sobre quando será lançado. “Diversos projetos estão prontos para pauta do plenário e a prioridade depende da decisão do Colégio de Dirigentes”, diz a nota.

O último movimento oficial registrado ocorreu em 24 de outubro de 2023, quando a proposta entrou em sessão deliberativa extraordinária, mas não foi apreciada.

O cenário é particularmente sensível em Mato Grosso do Sul. O bioma ocupa aproximadamente 62% do território estadual, abrangendo 62 dos 79 municípios, incluindo Campo Grande. Mesmo assim, apenas 25% da flora nativa original do Cerrado ainda está preservada no estado, segundo dados do MapBiomes. O restante foi convertido principalmente para pastagens, agricultura e outros usos antrópicos.

O Cerrado é um bioma que ocupa 62% do Mato Grosso do Sul (Foto: Eco/Arquivo)

Proteção Ambiental – Embora o Cerrado seja protegido por leis federais, como o Código Florestal, pesquisadores e organizações afirmam que as regulamentações atuais ainda não respondem às características ecológicas do bioma ou ao ritmo das mudanças na região.

Existem políticas coordenadas pelo governo federal que incluem o Cerrado, como o PPCerrado (Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento). Em 2024, entra em vigor a Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo, enquanto Mato Grosso do Sul implementa o PEMIF (Plano Estadual de Manejo Integrado do Fogo).

Mesmo assim, os pesquisadores defendem o desenvolvimento de mecanismos específicos que visem a preservação das características hidrológicas do bioma.

Para o assessor jurídico da Red Cerrado, Fabio Martins, a ausência de proteções constitucionais específicas contribui para a fragilidade das políticas ambientais voltadas ao Cerrado.

“O Cerrado é considerado uma zona de sacrifício”, disse.

Segundo ele, a PEC 504 representa um esforço para criar uma camada adicional de proteção para uma região sob forte pressão da expansão agrícola, florestal, mineração e grandes projetos de infraestrutura.

Parte do Monumento Natural Municipal Serra do Bom Jardim Cerrado em Alcinópolis (Foto: Prefeitura Municipal de Alcinópolis/MS)

Diferenças na legislação- Fabio também chama a atenção para a diferença de tratamento dado aos biomas na legislação ambiental. Ele destacou que, no Código Florestal, as áreas de cerrado fora da Amazônia legal têm menor percentual de proteção do que as florestas amazônicas.

“Na Amazônia a lógica é conservar 80% e permitir o desmatamento de 20%, no Cerrado a proporção se inverte”, afirma.

Para ele, o bioma passa por um processo histórico de desaparecimento político. “Quando falamos em proteção ambiental, as referências quase sempre são a Amazônia, o Pantanal e a Mata Atlântica. O Cerrado acaba ficando em segundo plano, apesar de ser uma grande caixa d’água do país”, disse.

Altair de Sousa, diretor-secretário do CCPPC (Centro de Produção, Pesquisa e Treinamento do Cerrado) no assentamento Andaluzia, Nioc, a 185 quilômetros de Campo Grande, disse que o atraso na aprovação da PEC reflete uma disputa histórica por espaço político.

“Quando falamos de biomas no Brasil, muito foco está na Amazônia. O Cerrado e a Caatinga acabam à mercê desse grande debate”, disse Altair, que também é membro do conselho político do Cerrado Vermelho.

Segundo ele, as organizações da sociedade civil começaram a pressionar por uma legislação específica durante a mobilização ambiental que surgiu após a Eco-92, a partir da década de 1990.

Altair afirma que entidades ligadas à agricultura familiar, povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais têm tentado fortalecer atividades sustentáveis ​​baseadas em produtos da sociobiodiversidade do cerrado, como pequi, jatobá e castanha de baru.

“Procuramos mostrar que o Cerrado é rico em fauna, flora e produção sustentável. É o oposto do modelo de exploração caçador-coletor”, afirma.

Famílias colhem legumes em assentamento andaluz (Imagem: Eco/Divulgação)

Importância e impacto ambiental – Segundo o ICMBO (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), o Cerrado possui cerca de 6.000 espécies de plantas nativas, cerca de 200 espécies de mamíferos, 800 espécies de aves, 180 espécies de répteis, 150 espécies de anfíbios e 150 espécies de anfíbios. O bioma concentra as nascentes que alimentam importantes bacias hidrográficas do continente, como os rios Paraná, Paraguai e São Francisco.

Apesar da sua importância ecológica, apenas 8,21% da área total do Cerrado está protegida por unidades de conservação integralmente protegidas.

A pesquisadora francesa Marine Dubose-Raoul, vinculada ao programa de pós-graduação em geografia da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) em Três Lagois, afirma que o Cerrado é atualmente um dos biomas mais degradados do país.

“O Cerrado protege os cursos d’água e garante a recarga hídrica. Quando a vegetação nativa é substituída por monoculturas, o processo natural de infiltração e recarga hídrica é alterado, o que afeta diretamente a vazão dos rios e a disponibilidade hídrica”, explica.

Segundo ele, a função ecológica do bioma ainda é pouco compreendida pela sociedade e pelas autoridades governamentais.

“É uma espécie de floresta invertida. A parte mais ativa do ecossistema está abaixo da superfície”, disse ele, descrevendo o papel das raízes profundas e do solo permeável na infiltração e conservação da água.

Marin também relata que os efeitos da degradação já estão sendo sentidos pelas comunidades rurais. “Com a perda de habitat e de alimentos, muitas espécies migram para fazendas e quintais em busca de alimento”, afirma.

Comunidade rural e monocultura – A pesquisadora explicou que, além do desmatamento, comunidades e pesquisadores estão preocupados com o impacto do uso intensivo de agrotóxicos e da disseminação da monocultura, principalmente do eucalipto na região leste do estado. As propostas discutidas incluem a criação de zonas de amortecimento entre plantações e áreas ecologicamente sensíveis, como nascentes e fragmentos protegidos de biomas.

“Hoje não existe uma lei específica para lidar com esse novo cenário de monocultura em grande escala no Cerrado”, afirma o pesquisador, destacando que desde 2024 o Fórum de Combate aos Impactos do Eucalipto foi criado por iniciativa de pesquisadores e comunidades do Cerrado da região Leste para encontrar soluções para o problema.

A presidente da ONG Eco, Nathalia Ziolkowski, avaliou que o Cerrado historicamente recebe menos atenção política e financeira do que outros biomas brasileiros, apesar de sua importância estratégica para a produção de água.

“O Cerrado é um hotspot global de biodiversidade. Mais de 50% da vegetação original já mudou e está sob grande pressão dos avanços agrícolas”, disse.

Segundo Natália, que também faz parte do Cerrado Vermelho, as comunidades rurais do estado já enfrentam dificuldades para manter a produção agrícola e até o abastecimento doméstico devido à escassez de água. Em Nioaque, um projeto da Ecoa restaurou duas nascentes ligadas ao rio Taquarucu, plantando 5,5 mil mudas de espécies nativas do Cerrado.

“Até a comunidade está ficando sem água para uso pessoal”, relata

Integração Regional – Para fortalecer a luta pela defesa do bioma, entre os dias 15 e 17 de junho, as organizações da rede Cerrado reunirão representantes de Campo Grande, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul para realizar um encontro regional sobre fortalecimento do desmatamento, queimadas, grandes projetos e diversidade socioeconômica.

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