VDira avaliou que a classificação “terrorista” dos EUA poderia enfraquecer o PCC e o CV através de prisões e bloqueios.

Antonio Carlos Videira, titular da pasta de Segurança Pública de Mato Grosso do Sul (Foto: Divulgação/Governo MS)

O Cejusop (Secretário de Justiça e Segurança Pública de Mato Grosso do Sul) vê positivamente a possível classificação do PCC (Primiro Comando da Capital) e do CV (Comando Vermelho) pelos Estados Unidos e avalia que esta medida pode ter um impacto concreto no combate ao crime organizado internacional, mesmo sem mudanças na mídia brasileira.

“Se os Estados Unidos levarem a liderança do PCC e do CV para fora do Brasil, isso seria um grande passo”, disse ele. Notícias de Campo Grande O secretário Antonio Carlos Videira, para quem o principal ganho será fortalecer a cooperação internacional destinada a prender líderes criminosos que se refugiaram no exterior e bloquear os recursos financeiros de grupos. Na fronteira do Mato Grosso do Sul com o Paraguai e a Bolívia, o PCC e o CV disputam as rotas de transporte por onde circulam cerca de 40% da cocaína que entra no Brasil.

Na opinião do Secretário, a discussão da classificação faccional não se desenvolveu repentinamente e não pode ser considerada um movimento isolado na política norte-americana. Segundo ele, o problema está em formação há pelo menos dois anos, período em que as autoridades passaram a observar com maior preocupação a expansão das organizações criminosas brasileiras para além do tradicional tráfico de drogas.

Além do tráfico A VDI observou que os PCC e os CV começaram a investir cada vez mais no branqueamento de capitais e na infiltração de actividades económicas legais. Em algumas partes do país, disse, grupos já exploram serviços que vão desde a distribuição clandestina de sinais de Internet à venda de bens essenciais como transportes públicos e gás de cozinha.

Para o secretário, um dos aspectos mais relevantes da possível classificação promovida pelos Estados Unidos são as ferramentas que poderiam ser disponibilizadas para identificar e apreender criminosos que estão fora do alcance das autoridades brasileiras.

Segundo ele, parte importante dos líderes envolvidos no tráfico de drogas e nas principais organizações criminosas do Brasil está localizada em países ou corredores vizinhos produtores de drogas, especialmente no Paraguai, Bolívia e Colômbia. Mesmo fora do território nacional, muitos desses criminosos continuam a influenciar as operações no Brasil.

“Se essas pessoas do Comando Vermelho e do PCC, que estão radicadas neste país, forem mortas, alvejadas e presas, você enfraquece a organização criminosa”, disse.

Capturar e bloquear – Para destacar a importância da cooperação internacional, Vidira citou o caso dos grandes traficantes de drogas que passaram pelo Mato Grosso do Sul, mas acabaram estabelecendo suas bases fora do país.

Eles incluem Gerson Palermo, preso na Bolívia na semana passada e transferido para Campo Grande, e o ex-primeiro-ministro Major Sergio Roberto de Carvalho, detido na Europa durante anos por dirigir uma rede internacional de tráfico de cocaína. Até 2018, quando foi expulso, Carvalho era funcionário da PM de Mato Grosso do Sul. Para o secretário, ampliar a capacidade de detectar e apreender criminosos desse porte representaria um avanço significativo no combate às gangues.

O secretário também rejeitou avaliações de que a medida representaria uma ameaça à soberania do Brasil. Para isso, os acordos de cooperação entre o Brasil e os Estados Unidos no combate à inteligência e ao crime organizado existem há décadas e sempre funcionaram dentro dos limites institucionais de cada país.

Na avaliação de Videira, a ampliação do envolvimento da CIA e das Forças Especiais, que adotaram toda a estratégia, não elimina o papel tradicional de agências norte-americanas como a DEA e o FBI, que mantêm uma cooperação histórica com as forças de segurança brasileiras. Segundo ele, a participação de instituições norte-americanas na investigação de tráfico internacional, lavagem de dinheiro e organizações criminosas não é nova. O que poderá acontecer agora é uma expansão das ferramentas disponíveis para identificar criminosos, rastrear activos financeiros e partilhar informações estratégicas.

“Não tenho medo disso, da soberania. A soberania do Brasil está consolidada. O que temos que temer é a impunidade”, disse.

Para o secretário, o debate não deve focar em disputas ideológicas ou geopolíticas, mas em resultados concretos que possam produzir uma cooperação mais intensa. Na avaliação dele, se a nova classificação permitir a captura de líderes criminosos escondidos em algum lugar do mundo, o impacto na segurança pública brasileira será positivo.

Além das prisões, VDira acredita que a cooperação internacional pode fortalecer o rastreamento de bens e o bloqueio de bens adquiridos do crime organizado. Segundo ele, a luta financeira tornou-se uma das frentes mais importantes da ação estatal contra as gangues, justamente porque essas empresas começaram a diversificar os investimentos e a utilizar estruturas cada vez mais sofisticadas para ocultar e transferir ativos.

O desafio está no Brasil- Ainda assim, o secretário sublinhou que nenhum sistema internacional seria suficiente sem mudanças internas. Na sua avaliação, o Brasil precisa discutir atualizações legislativas e aprimorar seus instrumentos de combate às organizações criminosas.

Videira lembra que a ausência histórica do Estado em áreas consideradas estratégicas também está ligada ao fortalecimento gradual dos partidos. Durante décadas, diz ele, a segurança pública ficou em segundo plano em relação a outras demandas sociais igualmente importantes, permitindo que organizações criminosas ocupassem o espaço desocupado pelas autoridades públicas.

A mesma lógica, segundo o secretário, pode ser aplicada ao sistema penitenciário brasileiro. Para ele, a falta de investimento, a falta de espaço e a ausência de políticas consistentes de ressocialização criaram um ambiente favorável para o fortalecimento das gangues dentro dos presídios.

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