Empreiteira dona do contrato de R$ 113 milhões usou materiais ruins e fez obras “precárias”

Operação de tapa-buracos no bairro Mata do Jacinto, em Campo Grande (Foto: Osmar Veiga/Arquivo)

Em Campo Grande, além das medidas fraudulentas para desviar recursos do tapamento de buracos da Construtora Real Ltda., a empresa centro da investigação liderada esta semana pela Operação “Buraco Sem Fim” tem prestado um serviço de “péssima qualidade”, segundo o Zicoc (grupo especial anticorrupção). Um dos relatórios apresentados à Justiça para justificar a prisão de sete pessoas sob investigação e mandados de busca em 10 endereços nesta terça-feira (12) mostra que foram encontrados matéria orgânica, plástico e até lixo na massa asfáltica utilizada pela empresa.

A Operação Buraco Sem Fim revelou que a Construtora Real Ltda. utiliza resíduos, plásticos e materiais orgânicos na produção de asfalto em Campo Grande. A empresa acumulou R$ 113,7 milhões em contratos, com pagamentos baseados em medições hipotéticas entre 2018 e 2025. Sete pessoas foram presas, incluindo o ex-secretário de infraestrutura Rudy Fiores. MP investiga organização criminosa por fraude em licitação e peculato

Segundo investigações preliminares, os empresários, engenheiros, fiscais e servidores integravam uma organização criminosa voltada ao desvio de dinheiro público por meio da manipulação de medidas de obras.

Entre os alvos estão o empresário Antonio Roberto Bittencourt Teixeira Pedrosa, conhecido como “Peteca”, Antonio Bittencourt Jacques Pedrosa, o ex-secretário municipal de Infraestrutura Rudy Fiores, além de funcionários ligados à Cesep (Secretaria Municipal e Serviço Público de Infraestrutura). O Ministério Público também solicitou busca na sede da Construtora Real e nos imóveis dos investigados.

Segundo a investigação, o grupo atuava em contratos relacionados à manutenção de estradas não pavimentadas e recuperação de asfalto desde 2018. O MP alegou que as empresas já haviam acertado previamente o resultado da licitação e depois alteraram a medida para aumentar o pagamento. São citadas competições realizadas em 2018, 2020 e 2022, o que teria sido uma divisão inicial de lotes entre as empresas envolvidas.

Inferior – Segundo o MP, a Construtora Real acumulou R$ 113,7 milhões em contratos e aditivos entre 2018 e 2025, valor que, segundo o Ministério Público, “não se sustenta na realidade incerta das obras executadas”.

A investigação também apontou a utilização de material impróprio nos trabalhos realizados pela empresa. Um parecer técnico anexo ao processo afirma que “foram observados resíduos de matéria orgânica/vegetação e resíduos urbanos, como embalagens plásticas, no solo compactado”, situação que “prejudica diretamente a qualidade dos serviços executados”.

De acordo com o relatório anexado pela Gecoc ao ato processual, não foram encontrados na documentação analisada exames laboratoriais obrigatórios para garantir a qualidade e compacidade do trabalho, apesar das mensalidades dos serviços relacionados ao controle técnico. O parecer refere ainda que a falta de controlo sobre o material utilizado “não nos garante que o material seja de qualidade superior às estradas onde será aplicado”.

A investigação sustentou que os pagamentos foram divulgados com base em medições fictícias, sem relação com os serviços efetivamente prestados. Relatórios técnicos anexados à investigação indicam que, apesar dos milhões de dólares pagos pelo município, os trabalhos de manutenção nas estradas não pavimentadas não teriam sido concluídos.

O documento também consolida relatórios internos sobre o andamento dos trabalhos realizados pelo Real. Um engenheiro da Secretaria “destacou repetidamente a falta de capacidade técnica e operacional da Constructora Real Limited, classificando a obra como precária”.

Outra citação informa que o conversador Edivaldo Aquino Pereira, chefe da operação de tapa-buracos do Cesep, também foi preso na operação junto com o dono do Real. “No mesmo sentido, a conversa de Edivaldo com o proprietário da empresa revela a incerteza dos trabalhadores e das máquinas, pelo que a intervenção pode ser classificada como ‘serviço de porco’”.

Incerteza de pessoal e equipamentos, chegando ao ponto de classificar a intervenção como um ‘serviço de suínos’.

O Ministério Público afirmou ainda que os inspectores, engenheiros e gestores responsáveis ​​pela verificação das medições estavam conscientes da má qualidade dos serviços prestados. A investigação mostrou que o grupo mantinha uma estrutura paralela para beneficiar determinadas empresas em contratos públicos.

Os deputados investigam crimes de organização criminosa, fraude em licitações, peculato e outros crimes contra a administração pública.

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