Relatório Floresta em Pó destaca peso do tráfico sobre as vítimas em Mato Grosso do Sul
Mato Grosso do Sul volta a aparecer no mapa nacional da cocaína, mas com as informações mais reveladoras do relatório Floresta em Po, do Instituto Fogo Cruzado, e não apenas nas rotas de passagem de fronteira. Está no efeito menos visível deste processo: a convicção, especialmente das mulheres.
Segundo relatório Floresta em Pó, do Instituto Fogo Cruzado, Mato Grosso do Sul desponta como rota estratégica para o tráfico de cocaína no Brasil. O estudo observou que 68% a 80% das prisões femininas do estado estão associadas ao tráfico, um reflexo da guerra às drogas que aumentou o encarceramento no país. As fronteiras com o Paraguai e a Bolívia controladas pelo PCC têm consequências sociais e criminais, embora o desconfinamento ocorra principalmente em Goa e São Paulo.
O estudo analisa os impactos socioeconômicos e ambientais das cadeias produtivas da coca e da cocaína no Brasil. O estudo reúne seis artigos de pesquisadores e especialistas sobre origens da coca, rotas de tráfico, refino, mercados internacionais e alternativas à atual política de drogas.
No capítulo sobre a busca pela cocaína, o estudo observa que as políticas de guerra às drogas ajudaram a aumentar o encarceramento no país. Entre as mulheres, a carga é maior: apesar de representarem apenas 5% do total da população carcerária, 52,5% são criminalmente responsáveis pelo tráfico de drogas.
A seguir, o documento destaca os estados fronteiriços com os maiores índices de encarceramento entre eles, estando Acre e Mato Grosso do Sul entre os líderes em índices de encarceramento nos últimos anos.
Dados do Senappen (Secretaria Nacional de Políticas Penais) mostram que há 1.039 mulheres no sistema penitenciário estadual, mas a consulta ao banco de dados não permite dizer, dentro desse universo, quantas são responsáveis específicas pelo tráfico de drogas.
Destes, 290 ainda não foram condenados, 639 cumprem pena em regime fechado, 84 em regime semiaberto e 25 em regime aberto. No entanto, o total reportado por regime atingiu 1.038, um a menos que o total publicado.
A AJPEN (Agência de Administração do Sistema Penitenciário Estadual) indica 1.002 mulheres em regime fechado e 114 em regime semiaberto. A última pesquisa da Agepen diz que o tráfico de drogas é a principal causa do encarceramento feminino, representando cerca de 68% a 80% das prisões.
Segundo o estudo, ao final de 2024, cerca de 205 mil pessoas estavam presas no Brasil por crimes enquadrados na lei sobre drogas. O próprio relatório observa que é “improvável considerar” que todos eles fazem parte do nível superior do tráfico.
No Mato Grosso do Sul, o documento volta a citar pontos já conhecidos da geografia criminal. A chamada Rota Caipira, sob controle do PCC (Primeiro Comando da Capital), administra a fronteira com o Paraguai e a Bolívia, principalmente em Ponta Porã e Corumbá. A área entre Ponta Porã e Pedro Juan Caballero tem sido descrita como o ponto fronteiriço mais perigoso do país devido aos conflitos ligados à economia ilegal.
O relatório afirma ainda que pousos em pistas secretas ocorrem diariamente nos estados de São Paulo, Goa, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Paraná. A malha rodoviária, segundo o estudo, favorece a distribuição de medicamentos pelas cidades, portos e aeroportos do Brasil.
Mas o papel do Mato Grosso do Sul como importante centro de refino não foi descrito. O estudo observa que a baixa concentração de grandes laboratórios em estados fronteiriços pode ser explicada pela importância de São Paulo e Goiás. Parte da pasta base que entra no Brasil pelo Mato Grosso e Mato Grosso do Sul é levada para refino em Goa e depois para portos do Nordeste e Sudeste.
Este ponto muda o foco da agenda. Mato Grosso do Sul é uma rota, mas não contém necessariamente a fase mais rentável da cadeia. As drogas atravessam o estado, ganham valor em outros centros e deixam para trás o caminho mais barato: a prisão, a violência e a vulnerabilidade.
O documento também faz referência histórica a Koramba. Na linha do tempo da proibição da cocaína no Brasil, o relatório observa que, em 1989, o número de farmácias na cidade aumentou repentinamente, ligado ao fornecimento de acetona, éter e ácido sulfúrico para refino de cocaína na fronteira com a Bolívia.
Noutra frente, o estudo liga a economia da cocaína às influências urbanas. Nas cidades e áreas metropolitanas, refere-se à proliferação de cenas públicas de consumo de crack e outras drogas entre pessoas sem-abrigo, muitas das quais são vítimas de sem-abrigo e de violência racial e de género.
O relatório argumenta que a economia da cocaína vai além da substância. Desloca territórios, incentiva a ilegalidade, facilita a corrupção, aumenta a exploração predatória e promove a violência. No Mato Grosso do Sul, uma possível explicação é que a fronteira não transporta apenas drogas. Também se concentra nas consequências sociais e criminais deste mercado.







