Kinshasa: O surto mortal de Ébola na República Democrática do Congo espalhou-se pela sua quarta província, o que significa que toda a região nordeste do país – cerca de 15 milhões de pessoas – está agora afectada.
A epidemia matou 360 pessoas em 1.274 casos confirmados, segundo a Organização Mundial da Saúde.
Em 15 de maio, a República Democrática do Congo anunciou o seu 17º surto de febre hemorrágica viral. Desta vez, é causada pela cepa Bundibugyo do vírus, para a qual atualmente não existe vacina ou tratamento eficaz.
A Organização Mundial da Saúde disse que os ensaios clínicos começarão nos próximos dias e emitiu um alerta internacional sobre a doença.
A província de Ituri, afectada pelo conflito, é o epicentro do último surto, registando 1.165 casos e 301 mortes, segundo as autoridades de saúde.
Cientistas e trabalhadores humanitários dizem que o número real é provavelmente maior.
Até agora, duas outras províncias: Kivu do Norte e Kivu do Sul também foram afectadas.
Do outro lado da fronteira, Uganda também notificou 20 casos e duas mortes.
Haut-Uélé, que faz fronteira com o Sudão do Sul e a República Centro-Africana, é agora a quarta província afetada.
Segundo fontes do Instituto Nacional de Investigação Biomédica (INRB), um caso foi detectado depois de uma pessoa infectada ter viajado de Bunia, capital de Ituri, para a província de Alto-Uélé. Outra fonte de saúde disse à AFP que a pessoa já faleceu.
As autoridades estão agora a tentar rastrear a cadeia de transmissão e identificar contactos.
Em muitos casos, o vírus espalha-se em funerais onde são manuseados os corpos altamente contagiosos de pessoas infectadas com Ébola.
Durante semanas, as equipes de resgate, enfrentando a desconfiança das comunidades locais, tentaram planejar enterros seguros nas áreas afetadas para evitar o contato com os mortos.
Na República Democrática do Congo, como em grande parte de África, os funerais duram normalmente vários dias, durante os quais familiares e amigos tradicionalmente tocam o corpo do falecido.
Os centros de saúde relataram confrontos furiosos depois que parentes exigiram a entrega dos corpos de familiares.
– difícil de conter –
Tanto Ituri como Alto Uélé são zonas fronteiriças com movimentos e comércio transfronteiriços frequentes, o que pode acelerar a propagação do vírus.
Ituri enfrenta violência há anos, com massacres perpetrados por milícias locais e pelas Forças Democráticas Aliadas (ADF) ligadas ao grupo Estado Islâmico.
As ADF lançaram recentemente uma incursão em Haut-Uélé, uma região também perturbada por grupos armados de países vizinhos.
A insegurança torna mais difícil a implementação de respostas de saúde, que já progridem lentamente.
Os profissionais de saúde dizem que o vírus pode ter circulado há meses antes de ser oficialmente detectado, com alguns casos suspeitos datando de janeiro.
Apesar dos esforços intensificados nas últimas semanas, os sistemas de saúde nestas áreas continuam fracos.
As instalações muitas vezes carecem até de suprimentos básicos, como equipamentos de proteção e desinfetantes.
Os centros de tratamento do Ébola criados com o apoio da Organização Mundial de Saúde e de grupos de ajuda estão sobrecarregados.
Segundo o Instituto Nacional de Saúde Pública, estão operando com mais de 138% da capacidade.
A epidemia também atingiu o pessoal médico, com 78 profissionais de saúde infectados e 18 mortos.
Especialistas dizem que o surto ainda não atingiu o seu pico, mesmo mais de seis semanas depois, e alertam que a crise pode durar um ano.
O Ébola, que se espalha através do contacto com fluidos corporais, matou mais de 15 mil pessoas em África nos últimos 50 anos.
O surto mais mortal na República Democrática do Congo ocorreu entre 2018 e 2020, quando houve 3.500 casos e quase 2.300 mortes.







