Uma entrevista inédita publicada após sua morte revelou um dos lados mais íntimos de Indio Solari. Destemido no final, ele falou sobre dor, idade, amor e aceitação com uma clareza que hoje emociona seus seguidores.
Durante décadas foi uma das figuras mais enigmáticas da cultura argentina. Escondido atrás das canções que viraram hinos, das multidões que o seguiram como um profeta e do silêncio que alimentou sua lenda, Indio Solari sempre optou por falar pouco sobre si mesmo.
Por isso, a entrevista inédita que o comediante Toot decidiu publicar poucos dias após a sua morte ganha hoje uma dimensão especial e foi repetida pela Infobae. Não porque revele segredos desconhecidos ou anedotas impressionantes. Muito pelo contrário. É comovente porque mostra um homem diante da questão mais universal: o que pensar sabendo que o fim faz parte da jornada.
E a resposta do índio foi tão simples quanto desarmar. “O que não gosto não é a morte, não gosto da dor nem de todo o sofrimento da fraqueza”, confessou.
Não houve medo em suas palavras. Nem rebelião. Muito menos recuar. Houve uma recepção. Quando Tute lhe perguntou o que diria à sua morte se pudesse falar com ela, o músico respondeu com uma calma que hoje é chocante.
— Não tenho nada para lhe perguntar. Para ele, a morte fazia parte da ordem natural das coisas. Algo inevitável, tão antigo quanto a própria existência humana.
“Compreendo muito bem que o restaurante da natureza funcione assim”, explicou com uma daquelas imagens poéticas que pareciam brotar naturalmente do seu pensamento.
As reflexões ficam ainda mais profundas quando ele fala sobre seus pontos de vista. Ou melhor, a sua ausência. Solari se definiu como agnóstico. Ele não confirmou nem negou. Ele simplesmente admitiu que não sabia.
“Nunca tive uma revelação ou epifania, nada que me dissesse que havia vida após a morte”, disse ele. Talvez seja por isso que suas palavras são tão tocantemente honestas. Ele não tentou convencer-se com garantias espirituais ou promessas de eternidade. Ele olhou para a ponta à sua frente, aceitando o mistério.
Mas se alguma coisa parecia superar o medo da exaustão física, era o amor. Em um dos momentos mais delicados da entrevista, ele falou sobre Vir, seu companheiro de toda a vida.
“Hoje tenho uma relação muito amorosa, muita gentileza, muita educação”, disse. E então ele acrescentou uma definição que resume a profundidade desse vínculo:
“Encontrei uma pessoa com uma beleza espiritual muito importante.” Em meio a uma vida caracterizada pela exibição pública e pela adoração em massa, El Indio optou por destacar exatamente isso: ternura, intimidade e comunidade.
Talvez seja por isso que ele também não parecia ter nenhum assunto pendente.
“Não comecei a me arrepender”, disse ele quando questionado sobre seus erros na vida. A frase hoje soa quase como uma despedida forçada. Uma conclusão tranquila para alguém que seguiu seu caminho sem muita dívida consigo mesmo.
E talvez a confissão mais bonita tenha ocorrido quando ele falou sobre felicidade. “Sempre fui muito feliz na vida, quando criança.”
Não foi uma frase pequena. Isto vem de um homem que passou por perdas, doenças, excessos, transformação cultural e décadas de exposição. Porém, em retrospecto, ele escolheu ficar feliz.
Portanto, entre todas as declarações desta entrevista inédita, nenhuma é tão poderosa quanto a sua opinião sobre o final.
Indio Solari não parecia estar lutando contra a morte. O que o preocupava era o sofrimento. O que ele valorizava era o amor. E o que ele defendia era a possibilidade de viver com intensidade.
Talvez seja por isso que suas palavras continuam a ressoar tão fortemente até hoje: porque por trás do mito, do roqueiro e da lenda emerge algo muito mais universal.
A voz do homem que percebeu que a vida é limitada, mas vale a pena.







