As trajetórias, rotas e finanças dos traficantes ajudam a explicar como o PCC se tornou um império e uma ameaça financeira.

As iniciais do Comando Vermelho, pintadas na parede da residência de Dourados. (Foto: Arquivo/Campo Grande News)

A prisão de Gerson Palermo em Campo Grande, nesta quarta-feira (27), coincidiu com um momento histórico no combate ao crime organizado brasileiro. Enquanto o narcotraficante identificado como um dos principais pontos de referência do PCC na fronteira com a Bolívia foi levado para uma prisão federal de segurança máxima, os Estados Unidos confirmaram a classificação da capital e do Comando Vermelho como organização terrorista, decisão que afetará as relações e a cooperação entre os dois países. A coincidência levanta uma questão que acompanha Mato Grosso do Sul há décadas: como a mesma faixa fronteiriça, que une o estado ao Paraguai e à Bolívia, ajudou a criar o caráter, o percurso e a estrutura que hoje não só as autoridades brasileiras, mas a decisão ainda criará o maior poder, por mais controverso que seja?

A prisão de Gerson Palermo em Campo Grande coincide com a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas pelos Estados Unidos, reavivando o debate sobre o papel da fronteira de Mato Grosso do Sul no crime organizado. Cerca de 40% das drogas que entram no país passam pela região, que liga o Brasil à Bolívia e ao Paraguai, e nomes como Fahd Jamil, Jorge Rafat e Major Carvalho marcaram gerações de traficantes internacionais.

Nas últimas décadas, a fronteira foi contestada por pelo menos meia dúzia de grandes contrabandistas. Fahd Jamil, Rafat, Beira-Mar, Cabeça Branca, Major Carvalho e Palermo são de épocas diferentes, mas todos enfrentam a necessidade de protecção política, policial, empresarial ou institucional para sustentar operações em grande escala. À luz da legislação brasileira, eles atuam como membros do crime organizado e as instituições policiais devem combatê-los.

Rota da cocaína – A lista é extensa. Passe pelo lendário “Rei da Fronteira” Fahd Jameel; Jorge Rafat Tumani, cuja morte abriu caminho para a expansão do PCC na região; Por Luiz Carlos da Rocha, Cabeça Branca; de Fernandinho Beira-Mar; Pelo ex-major da Polícia Militar Sergio Roberto de Carvalho, apontado como o maior traficante internacional de drogas já surgido no Brasil; e chegar a Palermo, apontado pelas autoridades como um dos principais pontos de referência do PCC na fronteira boliviana.

Apesar das diferenças de perfil e de época, todos encontraram nas fronteiras de Mato Grosso do Sul um ambiente favorável para a criação ou expansão de seus negócios ilegais.

De rota de trânsito, a região tornou-se uma plataforma logística de alcance continental. Por um lado, conecta o Brasil aos principais centros produtores de cocaína da Bolívia, Colômbia e Peru. Por outro lado, disponibiliza corredores rodoviários, ferroviários, fluviais e aéreos capazes de entregar medicamentos ao principal mercado consumidor do país e recentemente à Europa. Edgar Marcon, ex-superintendente da Polícia Federal em Mato Grosso do Sul, compara essa dinâmica a uma cadeia industrial.

“Você tem a manufatura e tem que levar o produto até o consumidor final. No meio está a transportadora. É aqui que a gente se enquadra no estado”, disse.

Segundo o deputado aposentado, Mato Grosso do Sul é estratégico para o tráfico internacional, mas serve principalmente como corredor logístico.

“A gente torce”, resumiu.

Ex-Superintendente da Polícia Federal de Mato Grosso do Sul, Edgar Marcon, em entrevista ao Campo Grande News. (Foto: Arquivo/Campo Grande News)

O preço da proteção – Ao longo dos anos, investigações policiais, processos judiciais e operações de combate ao crime organizado revelaram reiterados indícios de cooperação e corrupção por parte de agentes públicos. Fahd Jamil ganhou fama pela influência que exerceu na estrutura de poder na fronteira. George Rafat tinha uma fortuna capaz de sustentar o seu próprio sistema de segurança. Sergio Roberto de Carvalho serviu anos como policial militar antes de ser expulso da corporação e se tornar um símbolo da capacidade do tráfico de drogas de se infiltrar nas estruturas estatais. Em outro episódio simbólico, o juiz sul-mato-grossense Divoncir Maran se aposentou compulsoriamente em 2020 após ser acusado de favorecer interesses ligados ao crime organizado ao facilitar sua fuga para Palermo.

Para Markon, o poder de penetração das organizações criminosas exige que o próprio Estado fortaleça o seu sistema de controlo interno.

“Se você quer combater o crime, primeiro precisa fazer sua lição de casa”, diz ele.

Segundo ele, nenhuma política de conflitos produz resultados permanentes sem supervisão permanente das instituições responsáveis ​​pela sua implementação.

“Você tem que confiar nas pessoas com quem trabalha. Você tem que ter controle.”

Na sua avaliação, o crime organizado só atinge níveis quando encontra lacunas na corrupção ao longo do caminho.

“O crime só pode se sustentar porque há corrupção”.

Casos considerados isoladamente contam histórias diferentes. Observados em conjunto, sugerem um fenómeno mais amplo: a capacidade das organizações criminosas de transformarem o seu poder económico em influência institucional, transformando recursos ilícitos em estruturas de protecção, acesso e pressão que devem combater.

Terrorismo ou crime organizado? – As prisões de Palermo ocorrem quando a questão das gangues brasileiras atinge um nível sem precedentes. Após meses de pressão da direita brasileira, incluindo o senador e candidato presidencial Flávio Bolsonaro, o governo dos Estados Unidos decidiu na noite de quinta-feira (28) classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas, elevando a luta contra grupos brasileiros a um novo patamar diplomático e de segurança.

A avaliação, no entanto, está longe de ser consensual. Em nota publicada nesta quinta-feira (28), o Fórum Brasileiro de Segurança Pública reconheceu a classificação como uma decisão soberana dos Estados Unidos, mas alertou para o risco de transformar um tema complexo em bandeira eleitoral. A organização destaca a longa tradição de cooperação policial entre os dois países e defende que é importante recuperar áreas onde as facções lutam e controlar setores atualmente explorados pelo crime organizado, como fintech, apostas eletrónicas e criptoativos.

Markon considera a comparação incorreta.

“O PCC está longe de ser um grupo terrorista”, disse

Para isso, a face destas agências depende menos de novas classificações jurídicas e mais do fortalecimento da cooperação policial internacional.

“O que é preciso fazer sempre foi feito: cooperação. Partilhar informação, trabalhar em conjunto, mas cada um na sua. Funcionalmente é isso que a nossa polícia faz”, argumentou.

A avaliação coincidiu, pelo menos em parte, com as preocupações do procurador Lincoln Gaccia e do ex-secretário nacional de segurança pública Mario Sarrubo, que alertaram para o potencial impacto da medida nos mecanismos de cooperação internacional existentes.

Faria Lima da fronteira – Desse ponto de vista, Mato Grosso do Sul ocupa uma posição ímpar. Muito antes de o PCC e o Comando Vermelho se tornarem tema de debate em Washington, já estavam presentes sinais de internacionalização do crime organizado na fronteira com Mato Grosso do Sul.

Fahd Jameel simboliza uma época em que o poder criminoso estava associado ao controle de territórios, relações pessoais e influência local. Jorge Rafat, assassinado em 2016, representa palco de uma grande rede transnacional que liga Brasil e Paraguai, primeiro no contrabando e contrabando de mercadorias e depois no comércio de cocaína. As conexões consolidadas de Fernandinho Beira-Mar com fornecedores cartelizados na Colômbia. Cabeça Branca elevou o tráfico de drogas brasileiro a um patamar comercial e internacional. Palermo tornou-se uma expressão da expansão do PCC ao longo da rota boliviana, na fronteira com Coramba e outras localidades do Pantanal.

Major Carvalho é um dos operadores que ajudou a conectar a cocaína produzida na América do Sul ao mercado consumidor europeu. A polícia belga afirma que ele transportou 45 toneladas de cocaína para a Europa, obtendo lucros de cerca de 3 mil milhões de dólares.

A sequência revela uma estranha permanência histórica. Personagens são alterados, mortos, presos ou substituídos. O que resta é a centralidade da fronteira.

Markon vê uma mudança importante nesse cenário.

“Há 20 anos que existe um nome na fronteira. Não existe nenhum”, diz ele.

Ao avaliar os representantes reformados, organizações como o PCC absorvem ou substituem antigos chefes locais, transformando a região numa região de operadores facilmente descartáveis.

“Ninguém mais se identifica aqui na fronteira”, resume.

Placa com pichação 1533, indicando quadrilha criminosa do PCC. (Foto: Arquivo/Campo Grande News)

A localização geográfica estratégica, a proximidade com centros de produção de cocaína, a vasta expansão territorial, a integração econômica com cidades paraguaias e bolivianas e as dificuldades históricas de fiscalização ajudam a explicar por que a fronteira de Mato Grosso do Sul tem sido um pólo permanente de atração para sucessivas gerações de operadores do crime organizado. Acrescente-se a isto a infra-estrutura de transportes que serve o sector agrícola em rápido crescimento do país. Cerca de 40% dos medicamentos que entram no Brasil passam por esse corredor.

Outra parte do problema reside na capacidade destas organizações para desenvolverem relações de influência que vão além do mundo do crime e atingem os domínios da política, da economia e da política.

A Operação Hidden Carbon e seu desdobramento mais recente, Fluxo Occulto, são os exemplos mais proeminentes desse fenômeno hoje. A nova fase da investigação levou a Polícia Federal a endereços em Faria Lima, Etime Bibi e Alfaville, em São Paulo, além da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Mato Grosso do Sul.

O foco está em seis empresas de fintech e do mercado financeiro suspeitas de fazerem parte de uma estrutura usada para ocultar ativos e desviar recursos ligados ao PCC. Segundo investigadores, o grupo faturará mais de R$ 26 bilhões entre 2022 e 2025.

Se uma ponta da investigação está em Iguetemi, onde as distribuidoras de combustíveis investigadas compartilhavam estruturas logísticas e movimentavam bilhões de dólares, a outra chega aos centros financeiros mais sofisticados do país. A geografia de atuação ajuda a ilustrar o caminho do dinheiro: da distribuidora localizada na Rodovia das Balcinhas até o escritório de alto padrão na Faria Lima.

A explicação de Markon ajuda a compreender esta transição.

“O grande problema do crime organizado hoje não é o transporte da cocaína. O que pode ser feito com o dinheiro arrecadado”, afirmou.

Segundo ele, o endurecimento dos controles financeiros obrigou as gangues a encontrar novos dispositivos para esconder bens.

“Começaram a construir fintech, começaram a investir em bancos, começaram a investir em empresas nacionais.”

Para o delegado aposentado, a fronteira é relevante, mas o centro de gravidade do crime organizado mudou para outro ambiente.

“Os criminosos não estão mais na fronteira. Os criminosos estão na capital.”

A prisão de Palermo oferece uma oportunidade de revisitar um problema que atravessa gerações. Fahd Jamil, Rafat, Beira-Mar, Cabeça Branca, Major Carvalho e Palermo ajudam a contar a mesma história: a transformação gradual da fronteira do Mato Grosso do Sul num dos pontos de ligação entre a produção de cocaína sul-americana, os mercados consumidores internacionais e os circuitos financeiros que reciclam lucros criminosos. A decisão dos Estados Unidos de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas, embora possa ser um mero pretexto, mostra até onde esta história chegou. O debate agora é se a nova abordagem fortalecerá a luta contra as gangues ou prejudicará o sistema de cooperação policial e judicial construído ao longo de décadas.

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