Durante anos, esta pergunta acompanhou Dolores Pujol como um medo silencioso. Uma que surge do nada enquanto ela cozinha, antes de dormir ou observa o filho Marcos, hoje com 40 anos e gravemente autista.

Embora grande parte da conversa sobre autismo ainda se concentre na infância, ela começou a olhar para um vazio sobre o qual quase ninguém fala: a idade adulta.

Quem se importa com eles. Onde eles moram. O que acontece quando os pais envelhecem. O que acontece quando eles não conseguem mais lidar com tudo sozinhos. Então ele decidiu fazer algo.

“Como mãe, fiquei muito emocionada ao pensar no que acontecerá com ele quando partirmos.”

O que começou como uma preocupação íntima tornou-se um projeto coletivo: alojamento supervisionado para adultos com autismo, concebido para lhes proporcionar autonomia, apoio e uma vida digna quando as suas famílias se forem.

Em diálogo com Para Ti, Dolores falou sobre o medo, o esgotamento de muitas famílias, a falta de políticas públicas e o sonho que hoje tenta transformar a vida de centenas de pessoas.

“Eu mal podia esperar que alguém fizesse alguma coisa.”

— Em que momento sentiu que este projeto não podia esperar mais?

— Quando meu filho cresceu e se tornou adulto. Senti que só falavam das crianças e muito pouco ou nada da vida adulta das pessoas com autismo. Lá eu estava constrangido e mal podia esperar que alguém fizesse alguma coisa.

—Que situação pessoal com seu filho fez você perceber o quão urgente é pensar no futuro?

— Era urgente pensar que estávamos crescendo. Como mãe, fiquei muito comovida com a ideia do que aconteceria com ele quando partíssemos.

— Muitas famílias falam em “depois de nós”. Foi este medo a força motriz desta iniciativa?

– Absolutamente. After Us continua sendo um dos maiores impulsionadores desta iniciativa. Onde vão morar, quem vai cuidar deles, quem vai respeitá-los… essas são as perguntas que me faço todos os dias.

Dolores com seu filho Marcos

“Nada para adultos com autismo”

—Que necessidades específicas você viu que não estão sendo atendidas hoje?

—Faltam instalações residenciais destinadas a adultos com autismo, inclusão laboral e apoio terapêutico contínuo.

— Qual foi a coisa mais dolorosa que você descobriu ao estudar as possibilidades futuras do seu filho?

—O mais doloroso foi descobrir que nada estava planejado para o futuro. Olha, há muitas famílias sem teto. Entenda também que os pais ficam cansados ​​e que há muito pouca conversa na comunidade sobre a maioridade com autismo.

— Você acha que falta infraestrutura para a vida adulta na Argentina?

– Absolutamente. Nada para adultos.

“Há famílias que estão exaustas e sem ajuda”

— O que acontece com muitas famílias hoje em dia quando os filhos crescem?

— Existem situações muito difíceis. Há famílias exaustas, sem ajuda, sem política estatal. Existem crianças com comportamento perturbador ou autoagressivo e muitas vezes os pais não aguentam mais. Houve casos terríveis em que pais mataram os filhos e cometeram suicídio porque não conseguiram encontrar uma saída. Também casos em que estão presos. É muito triste.

— Por que você acha que ainda é tão difícil falar sobre adultos com autismo?

— Porque ainda há muita ignorância e muito preconceito. A infância ainda é mais falada do que a idade adulta.

— Que preconceitos sobre o autismo você gostaria de derrubar?

– Que todas as pessoas com autismo são iguais. Ou porque não falam, não entendem nem sentem carinho. Claro, eles sentem emoções e desejam ter um relacionamento.

— Quais são algumas coisas que você ainda acha que a sociedade não entende?

— O enorme esforço que as pessoas e as suas famílias fazem para se adaptarem a um mundo que ainda não está preparado para as incluir verdadeiramente. Falta de empatia e menos julgamento.

Como será a casa dos seus sonhos?

— Como será esta sala?

-Sonhamos com um espaço acolhedor, humano e verdadeiramente pensado para as necessidades das pessoas com autismo na idade adulta. O lugar onde podem desenvolver autonomia é a sua casa e onde podem ser felizes.

Trabalhar

— Que serviços incluirá?

—Isto incluirá alojamento para adultos com autismo, centro de dia, oficinas, salões, apoio terapêutico, SUM, refeitório, salas de aula e espaços exteriores onde possam partilhar, aprender e desfrutar.

—Por que foi importante pensar também na habitação e não apenas no centro de dia?

— Porque o centro de dia está concebido para atividades com duração de algumas horas. As casas são para quando não estamos e elas precisam viver 24 horas por dia, dormir e ter apoio constante.

— Como você imagina o dia a dia neste lugar?

—A ideia é que eles desenvolvam atividades, sigam uma rotina, compartilhem espaços e conquistem o máximo de autonomia possível, sempre acompanhados por equipe treinada.

— Quão importante é criar um ambiente específico para pessoas com autismo?

— É essencial. Eles precisam de espaços seguros, previsíveis e amigáveis, preparados para suas necessidades.

“Eu transformo medos pessoais em esperança compartilhada”

— O que significa para você transformar preocupações pessoais em um projeto coletivo?

— Para mim, significa transformar um medo muito pessoal numa esperança partilhada. Não procuro apenas uma solução para o meu filho, mas para muitas famílias que vivem a mesma confusão.

—Como Inês Estévez apareceu nesta história?

—Depois que o bilhete teve um grande impacto, muitas famílias começaram a me escrever. Aí criámos uma rede de pais e uma dessas mães foi a Inês. Entramos em contato pelo Instagram e hoje ele faz parte do grupo que também promove esse projeto em Buenos Aires.

“Minha tranquilidade seria saber que ele será feliz”

— Como mãe, o que mais te preocupa quando pensa no futuro do seu filho?

— A minha preocupação é que ele tenha um limite, que seja respeitado, que tenha um lugar onde possa se sentir seguro e acompanhado.

“Minha preocupação é que meu filho tenha apoio, que seja respeitado, que tenha um lugar onde possa se sentir seguro e acompanhado”.

— Qual seria a sua maior tranquilidade?

— Saber que este lugar lhe dará conforto e que ele poderá ser feliz ali. E saiba também que seus irmãos sempre encontrarão tudo o que precisa.

— O que você perguntaria ao Estado e também à sociedade?

—O estado tem um compromisso maior com a deficiência e com políticas estaduais que garantam direitos. E para a sociedade, mais empatia, mais informação e menos preconceito.

— Que mensagem você daria a outras famílias que hoje têm medo do futuro?

— Deixe-os lutar pelos seus direitos. Que é lógico sentir medo, mas transformar esse medo em ação. Hoje, existem muito mais ferramentas do que eu tinha quando recebi o diagnóstico do meu filho na década de 1980.

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