O que muda para estudantes de medicina e CRM

Para eles, a abertura de cursos desorganizados comprometia a formação médica e exigia mais investimentos

Estudantes de Medicina da Universidade Federal do MS, em aula no Campus Capital. (Foto: Divulgação/UFMS)

A exigência de aprovação no Enamod (Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica) para obtenção do registro profissional tem sido aceita positivamente pela Universidade de Campo Grande e pelos estudantes de medicina. Apesar do apoio à medida, representantes de instituições e estudantes afirmam que o teste não só resolverá os problemas de formação médica do país, mas também protegerá novos investimentos em infraestrutura universitária, áreas de atuação e no SUS (Sistema Único de Saúde).

Campo Grande acolheu com satisfação a exigência de aprovação do Enamud para estudantes universitários e de medicina para obtenção do registro profissional, medida assinada pelo presidente Lula em 19 de junho. Apesar do apoio, deputados e estudantes alertam que a testagem isolada não resolverá os problemas da formação médica, que exige investimentos em infraestrutura, áreas de atuação e no SUS.

As novas regras foram estabelecidas por medidas temporárias assinadas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e entraram em vigor no dia 19 de junho. A partir de agora, os alunos ingressantes nos cursos de medicina deverão passar pelo Enamed para serem registrados no CRM (Conselho Regional de Medicina), ao final do sexto ano. Será aplicado também no quarto ano um exame obrigatório, de caráter diagnóstico.

Chefe do departamento de gestão do Enade (Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes) e diretor de ensino superior da UEMS (Universidade do Estado de Mato Grosso do Sul), professor Vivaldo López Oliveira explicou que as exigências passarão a valer para quem ingressar no curso após a publicação da medida provisória. Os alunos já matriculados deverão ser avaliados, mas os resultados não os impedirão de exercer a profissão.

Na avaliação dele, a mudança fortalece o controle sobre a qualidade da formação médica, mas precisa ser acompanhada de investimentos nas universidades.

“Por outro lado, sabemos que não é só a avaliação que vai promover esta melhoria da qualidade. Para que essa melhoria, que é o objetivo final, aconteça, as instituições têm que investir em infraestruturas, laboratórios, equipamentos, bibliotecas.

Segundo Vivaldo, os processos de avaliação normalmente realizam cursos de revisão de métodos, estrutura e desenho educacional.

O diretor da Faculdade de Medicina da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), doutor Augustin Malzac, também vê essa medida como positiva. Para isso, a prova poderá elevar os padrões mínimos da formação médica, especialmente a expansão acelerada dos cursos no país e a responsabilidade da profissão, que lida com o sofrimento e a dor humana.

“Essas novas regras tentam pelo menos nivelar o jovem médico, estabelecendo um nível mínimo de aproveitamento para que ele possa exercer a profissão. Aceito toda e qualquer avaliação para que ele seja reconhecido entre a população jovem médica”, afirmou.

O diretor acrescentou que a melhoria da qualidade depende do investimento permanente em laboratórios, cenários simulados, hospitais universitários e atualização do corpo docente, especialmente nas novas faculdades.

“Dada a proliferação de escolas médicas no nosso país nos últimos dez anos, isto é motivo de preocupação porque o número de médicos no mercado não está correlacionado”, notou.

Estudantes de Medicina da UFMS realizam atividade com modelo anatômico. (Foto: Divulgação/UFMS)

Em nota, a Uniderp informou que considera a ENAMED “um avanço importante” para o ensino médico, mas destacou que a qualidade da formação precisa ser analisada de forma ampla, levando em consideração projetos educacionais, corpo docente, infraestrutura, atividades práticas e avaliação do MEC (Ministério da Educação).

A instituição afirmou ainda ter reforçado a simulação, revisão, análise de desempenho e revisão de projectos educativos, mantendo o investimento em qualificações e infra-estruturas educativas.

Entre os estudantes, as avaliações também são em sua maioria favoráveis, embora com críticas à extensão do curso sem estrutura adequada.

O aluno do sexto ano, João Pimenta, acredita que a prova ajudará a garantir padrões mínimos na profissão. Segundo ele, a abertura acelerada de cursos de medicina nos últimos anos ampliou o acesso, mas também fez uma diferença significativa na formação de novos médicos.

“Acredito que a ideia de você criar um teste é muito válida e muito correta, porque quando você procura um médico tem que confiar naquele profissional. É um exame que cobra menos para a pessoa poder trabalhar”, disse.

Para isso, o Brasil enfrenta um problema crônico na área da saúde, especialmente nas áreas mais remotas. Ele lembrou que o governo federal fez diversos esforços ao longo dos anos para melhorar a saúde, como a criação do SUS e a viabilização de novas universidades médicas, mas o problema permaneceu.

“Tínhamos criado um curso de medicina ótimo, principalmente em universidades privadas, mas também em universidades federais, e essas faculdades apareciam em muitos lugares sem nenhuma estrutura. E o problema disso é que os alunos começaram a envelhecer no curso, ninguém via nada, mas essas pessoas começaram a vir no quarto, quinto ano e não tinha cenário da prática deles.

Para a aluna do 4º ano, María Luisa Carvalho, fazer outro exame não é o cenário ideal, pois os estudantes de medicina têm muito o que estudar, mas tornou-se necessário devido à queda na qualidade de alguns cursos.

“Mas, na situação de hoje, acho que é necessário. Vemos que a qualidade da formação médica caiu muito. De dentro da universidade vemos que a formação está cada vez mais incerta e os médicos sabem menos, mas isso não é por falta de estudo, porque hoje em dia qualquer pessoa pode ter CRM, basta estar disposto a pagar por isso”, destacou.

Elton Oliveira, aluno do sexto ano, considera o Enamod apenas parte da solução. Para ele, o principal desafio é reestruturar o ensino médico no Brasil, que se agravou com a abertura de mais faculdades sem capacidade mínima para formar profissionais de saúde.

“Hoje há cidades que têm cursos de medicina, mas não têm nem hospital. Essas instituições acabam mandando alunos para fazer estágios e estágios em outras cidades. Temos exemplos de estudantes goianos que vêm fazer estágio em Campo Grande. Isso para mim é um absurdo, porque medicina sem prática é quase nada”, relata.

Nessa situação, o aluno destaca que o Named é a única medida concreta apresentada até o momento e, portanto, é favorável, pois o teste ajuda a avaliar o treinamento e limita um pouco mais o acesso ao CRM.

“Mas sou mais a favor da reestruturação do ensino médico. O ideal seria padronizar o curso, melhorar a qualidade do corpo docente e impedir quem não tem condições de formar profissionais. Não estou falando em dificultar o acesso à medicina, mas em garantir que o curso seja bem estruturado, com sólida base técnica e teórica”.

Link da fonte