A expressão “Justiça de Mato Grosso: 44” ficou historicamente conhecida por ser cantada nas feiras das igrejas, principalmente nos bingos do interior. A referência é ao calibre do revólver muito utilizado na época, quando Mato Grosso ainda fazia parte do Reino de Uno. Inserido num contexto cultural fortemente associado à autodefesa, a posse e porte de armas tornou-se socialmente aceite, especialmente em propriedades rurais remotas e com grandes extensões territoriais. As justificativas recorrentes foram proteger os moradores contra ataques de animais selvagens e potenciais ameaças à integridade física.

Era igualmente comum, durante as festividades de réveillon, o disparo indiscriminado de armas de fogo para o ar, comportamento que colocava em risco a integridade física da população e, em particular, dos policiais militares que policiavam abertamente as ruas. Na falta de apoio jurídico suficiente para intervir, os agentes de segurança são muitas vezes deixados a retirar-se para os seus quartéis como medida de autodefesa.

A realidade não era diferente quando se tratava de congestionamento de trânsito. A lei vigente à época não previa a obrigatoriedade do uso do cinto de segurança por motoristas e passageiros, mesmo sendo um dos equipamentos de proteção individual que mais salva vidas no mundo.

Estes exemplos ilustram como as profundas mudanças comportamentais resultaram dos desenvolvimentos legais, que passaram a refletir uma nova forma de agir: mais preventiva, responsável, respeitosa e socialmente aceitável. Tais transformações, embora inicialmente impactantes, revelaram-se fundamentais para a melhoria da convivência social e a preservação da vida.

Ao transferir esta reflexão para o campo específico da segurança pública, destacam-se dois exemplos que atualmente informam os debates nacionais e regionais. A primeira é a série documental Território – Sob o Domínio do Crime, lançada pela Globoplay, que aborda a expansão das quadrilhas criminosas e seu grave impacto na vida social brasileira. A segunda diz respeito às realidades locais: o Índice de Progresso Social identifica o município de Zapora, localizado na fronteira com o Paraguai, entre as 20 cidades com pior qualidade de vida do Brasil, levando em consideração indicadores como saúde, educação, saneamento, habitação, inclusão social, acesso a oportunidades e segurança pública.

Ambos os exemplos destacam a preocupação crescente, notória e praticamente unânime com a segurança pública. Nesta situação, torna-se essencial compreender a cidadania e praticar permanentemente o diálogo – principal ferramenta da administração pública – como caminho essencial para a criação de soluções eficazes e válidas.

É necessário adotar uma abordagem inovadora capaz de atender às reais necessidades da população. Investir numa maior conectividade através de ferramentas como câmaras de vigilância, drones, inteligência artificial e sistemas de reconhecimento facial expande a capacidade do Estado de interagir com os cidadãos, promover maior transparência, melhorar o desempenho institucional e fortalecer a verdadeira segurança pública dos cidadãos.

A modernização, por si só, confere maior legitimidade à acção estatal e permite a rápida identificação de tendências, riscos e prioridades estratégicas. Não se trata apenas de uma análise fria das estatísticas da criminalidade, mas de uma percepção concreta de insegurança, muitas vezes reflectida no medo quotidiano que tem um impacto devastador na qualidade de vida da população.

Por fim, é fundamental ter a nobre intenção de encarar o debate sobre segurança pública de forma madura, sem corporativismo, preconceito ou interesses eleitorais. Este debate deve envolver três áreas de poder e abranger temas estruturantes, nomeadamente a autonomia administrativa e financeira e a capacitação das empresas estatais como polícias administrativas, a indução de agentes policiais temporários e a implementação do ciclo policial completo. Tudo isso deve ser discutido prioritariamente pelos tecnólogos do setor, pela comunidade acadêmica e pelas sociedades organizadas, com o objetivo de proporcionar serviços mais eficientes, humanos e de segurança pública, alinhados às necessidades sociais contemporâneas.

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