Há dias em que entendemos. O cachorro que latia no portão não corre mais tão rápido. A gata que dominava o guarda-roupa agora prefere um cantinho no chão. O cabelo fica branco, o sono é mais longo e levantar-se no sofá pode ser um pouco chocante. É nesse momento que muitas pessoas temem: seus animais de estimação também estão envelhecendo.
Se antes os cães e gatos raramente atingiam a velhice, hoje vivem cada vez mais. E, junto com os anos extras, surgem novos desafios. Mudar a alimentação ou aumentar as visitas ao veterinário não é suficiente. Também é necessário preparar o coração para seguir esta etapa.
Para Giseli Bandera, professora de medicina veterinária da Estácio, a mudança aconteceu à medida que os animais passam a receber mais cuidados ao longo da vida.
“A expectativa de vida dos animais de companhia hoje aumentou. Isso se deve às melhorias na qualidade de vida proporcionadas pelos responsáveis, por meio da alimentação e do abrigo, bem como pelo desenvolvimento da medicina veterinária”, explica.
Os veterinários observam que a relação entre humanos e animais também mudou. Os animais de estimação não são mais apenas animais de estimação, mas ocupam um lugar de destaque dentro de casa e, muitas vezes, dentro da família.
“Hoje temos cães com 20 anos e gatos que podem chegar aos 22 anos e, o mais importante, com qualidade”, afirma Giselli.
Em média, cães e gatos entram na fase sénior entre os 6 e os 7 anos de idade. Desde então, as consultas periódicas tornaram-se mais importantes para identificar problemas nem sempre aparentes.
Tosse, cansaço, dificuldade para caminhar, alterações no apetite ou no comportamento são alguns dos sintomas que exigem atenção. Segundo Giselli, um erro comum é acreditar que qualquer mudança faz parte do envelhecimento.
“Idade não é doença. Não existe ‘idade é o que é’. É preciso cuidar e tratar seu animal de estimação para que ele envelheça bem”, alerta.
Os problemas mais comuns nesta fase incluem problemas cardíacos, renais, pulmonares, distúrbios hormonais e alterações na saúde bucal. A dieta também varia e deve ser orientada por um veterinário.
Mas, segundo especialistas, o envelhecimento começa bem antes da velhice.
“Proporcionar saúde aos animais de estimação desde cedo, incluindo nutrição adequada, prevenção de doenças e cuidados veterinários, significa que os animais de estimação hoje vivem mais e melhor”, disse ele.
À medida que o corpo do pet muda, também muda a rotina familiar. Para Maisa Colombo Lima, coordenadora do curso de psicologia da Estácio, cães e gatos ocupam hoje muito mais espaço emocional do que décadas atrás. São companhia, acolhimento e presença constante na vida de muitas pessoas.
“Quando uma pessoa olha para seu animal de estimação e pensa: ‘Ele está sempre comigo’, ‘Não estou sozinho’ ou ‘Alguém aqui está feliz em me ver’, esses pensamentos podem criar uma sensação de acolhimento, segurança e pertencimento”, explica.
Portanto, perceber que o animal não tem mais a mesma pulsão pode evocar sentimentos difíceis de controlar.
Segundo psicólogos, junto com o luto, muitos pais sentem medo, culpa e desamparo. É comum pensar que talvez não estejam fazendo o suficiente ou que o rompimento seja iminente.
Em alguns casos, aparece até o chamado sofrimento antecipado – quando a pessoa começa a sofrer antes que a perda ocorra.
“Esse sentimento é compreensível, porque geralmente aparece justamente onde há amor e vínculo”, afirma.
Mesmo assim, Maisa ressalta que reconhecer o envelhecimento do seu pet não significa desistir.
“Preparar-se não significa abandonar o animal ou prever sua morte. Significa reconhecer a realidade para prestar um cuidado mais consciente”, aconselha.
Ela recomenda que as famílias conversem sobre as mudanças, compartilhem cuidados e tentem trazer o foco de volta para o presente. Em vez de imaginar o pior, vale fazer uma pergunta simples: O que pode ser feito hoje para deixar seu pet mais confortável?
Quando o luto começa a afetar o sono, o trabalho, os relacionamentos ou até mesmo a capacidade de cuidar do próprio animal de estimação, buscar ajuda psicológica também pode ser uma opção.






