Crianças, pais e idosos passaram o domingo entre futebol, arte e boas lembranças
A ação “Vista a Rua”, promovida pela Centauro em parceria com o Podpah Funkbol Clube, neste domingo em Campo Grande, bairro José Abraão, transforma a Rua Armando Hollanda em um local de festa e recuperação cultural. O evento reúne moradores de diferentes gerações para pintar o asfalto com as cores brasileiras, homenageando o tetracampeonato de 1994, e conta com futebol, música e churrasco.
Por algumas horas deste domingo (24), no bairro José Abraão, a Rua Armando Hollanda, deixou de ser caminho de carros e muitos se lembraram da infância durante a Copa do Mundo: ponto de encontro, jogos, futebol na rua e vizinhos reunidos em torno de tinta fresca no asfalto.
Enquanto as crianças pintavam estrelas amarelas no chão, os adultos tiravam fotos, organizavam churrascos nas calçadas e relembravam a antiga Copa do Mundo onde cada morador ajudava a pintar a sua rua. Em meio ao som de DJs, partidas de futebol improvisadas e cheiro de tinta spray, a ação “Veste a Rua” promovida pela Centauro em parceria com o Podpah Funkbol Clube funciona menos como um evento publicitário e mais como uma recuperação emocional de uma tradição brasileira que aos poucos estava desaparecendo.
A intervenção homenageou o tetracampeonato da seleção brasileira, conquistado em 1994, e reuniu moradores de diversas idades no entorno da Praça do José Abraão.
O produtor do Podpah Funkbol Clube, Enzo Ciccarelli, afirma que o projeto já passou por Manaus (AM), Santo André (SP) e Maringá (PR) antes de chegar a Campo Grande, mas afirma que a essência da ação continua a mesma em todas as cidades: voltar às ruas para o povo.
“Essa é uma ação que continuamos há algum tempo. A primeira estrada traçada por esse projeto foi em Manaus, depois em São Paulo, no bairro de Santo André, e passou por Maringá antes de chegar a Campo Grande. A última cidade será Recife”, disse.
No meio do movimento, Enzo vê crianças ajoelhadas no asfalto tentando preencher os desenhos e lembra que a tradição permeia a história de sua própria família.
“É uma loucura participar disso com o Funkbol Club, que é minha casa. É uma sensação maravilhosa, porque pintar rua é trabalho do meu pai. Meu avô levou meu pai para pintar as ruas de São Paulo.”
Segundo ele, os preparativos começam no sábado, quando o grafiteiro responsável pinta todas as artes no chão. Neste domingo, o bairro tomou conta das ruas.
“A primeira Copa do Mundo que participei foi pintando as ruas”, brinca. “Foi muito oportuno, porque empolgou a criançada. Hoje em dia, com a tecnologia, as coisas são muito diferentes. As crianças estão acostumadas com celular e iPad, e a gente tirar elas de casa e pintar na rua é algo que não estamos acostumados a ver hoje em dia.”
Ao longo da manhã, cerca de 50 pessoas passam pelo local. Além da pintura, a organização também promove campeonato flash de futebol, distribuição de brindes e apresentações musicais.
O representante de marketing da Centauro, Diogo Uehara, disse que o bairro envolvido surpreendeu até a organização.
“Foi uma festa extravagante aqui em Campo Grande. Pessoas do bairro e de toda a vizinhança se reuniram. Tivemos muitos eventos, jogo de futebol, show com DJ, foi muito legal. As pessoas compraram muito a nossa parte.”
Segundo ele, o cenário mais interessante foram as diferentes gerações dividindo o mesmo espaço.
“Tinha até uma placa que dizia ‘As pessoas estão trabalhando para encontrar o hexa’. É algo que une todo mundo. Hoje vemos crianças de 3, 4 anos e até homens de 70 anos, que viram as conquistas do Brasil. Todos estão muito unidos.”
Diogo também relembrou pinturas nas ruas onde morou em São Paulo, quando era criança. Para ele, o evento ajuda a resgatar uma memória coletiva que foi engolida pela rotina e pela tecnologia.
“A tradição se perdeu. É ótimo trazer de volta a memória de uma criança que agora trabalha.”
A mistura entre futebol e arte também dá o tom da ação. A grafiteira responsável pela pintura do asfalto, Muriel Kourouneux, 38 anos, disse ver o projeto como uma rara oportunidade de unir duas culturas populares que costumam estar separadas.
“José Abra também faz parte da cultura hip-hop. Achei que era hora de combinar o graffiti, a arte de rua, com o futebol, porque na televisão às 8, 9 horas da noite de quarta-feira não se passa graffiti, mas futebol sim”.
Trabalhando com graffiti há 18 anos, Muriel disse que nunca havia pintado asfalto antes. Mesmo assim, disse que a experiência mais importante foi a interação com quem passou na estrada.
“Senti-me um privilegiado por ter sido selecionado para esta atividade. Acho que o mais importante é a interação com a arte, colocando-a como palco principal do passeio.”
Enquanto pintava os detalhes da arte, ela encontrou crianças observando cada movimento seu e pais vindo conversar. “Foi uma loucura ver a empolgação das crianças, dos pais também, porque acho que, para os pais, essa cultura faz parte da formação, não é aleatória”.
Para Muriel, o grafite e o futebol compartilham essa capacidade de criar uma identidade coletiva. “O graffiti começa de dentro. Começa no quarto, depois vai para casa e depois para a comunidade. É bom ver essa ligação com a comunidade.”
No meio de uma estrada coberta de tinta verde e amarela, o educador Alain Chimes, 49, encerrou acidentalmente o incidente. Ela caminhava pelo bairro com a filha de 9 anos quando decidiu parar para observar o movimento.
“Foi muito interessante para mim trazer esse show aqui no nosso bairro. Mal sabia minha família e eu sei, estávamos de passagem e já havíamos ficado”.
Lembrou-se de que já fazia anos que não via algo assim em Campo Grande. “Já participei desse tipo de ação, mas em outro bairro, há um tempo, quando a tocha olímpica chegou à cidade”.
Perto dali, um grupo de amigos assistia à pintura em torno de uma churrasqueira improvisada na calçada. Em meio a bandeiras brasileiras e cadeiras espalhadas pela rua, o educador Lucien Caisara disse ter visto algo maior que o futebol em cena.
“É muito importante, muito legal. Resgatamos uma cultura que já existia. No passado, cada um de nós fazia isso na sua rua.”
Para ele, o principal valor do carma é criar experiências que muitas crianças hoje não têm mais.
“É uma recuperação do tempo da nossa geração, quando as crianças de hoje em dia não têm esta experiência. Hoje tiveram esta experiência, esta oportunidade de pintar as ruas e torcer”.
Lucien faz uma pausa antes de concluir que o sentimento coletivo visto em José Abraão não cabe apenas no esporte.
“Não é só futebol. Vejo isso como cultura, socialização e diversão. Algo que vai além do futebol.”










