Viktor Orban, que governou a Hungria durante 16 anos como um autodenominado “espinho” no lado da UE e um defensor da “democracia iliberal”, admitiu no domingo a derrota ao conservador Peter Magyar, que obteve uma esmagadora maioria nas eleições parlamentares.
A derrota de Orban, numa votação que teve uma participação recorde, foi um duro golpe para os nacionalistas, incluindo o presidente dos EUA, Donald Trump, que o apoiou.
Também priva o presidente russo, Vladimir Putin, do seu ouvido mais solidário dentro da União Europeia.
Dezenas de milhares de apoiantes exultantes do partido Tisza, de magiar, aplaudiram os resultados fora da sede eleitoral do partido, nas margens do Danúbio, em Budapeste, agitando bandeiras húngaras e dançando, enquanto as buzinas dos carros soavam na capital.
“Eu me sinto fantástico!” Zoltan Sziromi, um estudante de 20 anos, comemorando no meio da multidão, disse à AFP.
“Finalmente nos livramos desse sistema e já era hora.”
Magyar, que chegou agitando a bandeira húngara, disse à multidão que os eleitores tinham “libertado a Hungria”, classificando a vitória do seu partido como um “milagre” no país da Europa Central de 9,5 milhões de habitantes.
“Hoje, o povo húngaro disse ‘sim’ à Europa”, disse aos seus apoiantes o antigo membro do governo e recém-chegado político, de 45 anos.
Ele prometeu “restaurar o sistema de freios e contrapesos…, garantir o funcionamento democrático do nosso país” e colocar a Hungria “de volta no caminho certo”.
Reconhecendo que se tratava de uma tarefa “enorme”, apelou à unidade, afirmando que a vitória pertence a “todos os húngaros”.
– ‘Inequívoco’ –
Com 98,15 por cento dos distritos eleitorais contados, Tisza garantiu uma maioria de dois terços com 138 assentos no parlamento de 199 assentos e 53,6 por cento dos votos, de acordo com os resultados oficiais das eleições. O Fidesz de Orban obteve 55 assentos com 37,9% dos votos.
No início do domingo, Orban, 62, admitiu a derrota.
“Os resultados eleitorais, embora ainda não definitivos, são claros e compreensíveis; para nós, são dolorosos, mas inequívocos”, disse Orban, 62 anos, aos jornalistas.
“Não nos foi confiada a responsabilidade e a oportunidade de governar. Parabenizei o partido vencedor”, disse ele.
A participação nas eleições atingiu um recorde de 79,50 por cento, de acordo com a contagem quase completa dos votos.
Orbán, que procurava um quinto mandato consecutivo, transformou o seu país num modelo de “democracia iliberal”, entrando em conflito com Bruxelas sobre questões de Estado de direito, bem como sobre o apoio à Ucrânia devastada pela guerra.
Magyar entrou em cena há apenas dois anos, prometendo combater a corrupção e oferecer melhores serviços públicos. Conseguiu apoio num contexto de estagnação económica e apesar de um sistema eleitoral distorcido a favor do partido Fidesz de Orbán.
Parabéns a Magyar chegaram de toda a Europa, com a França e a Alemanha a exortá-lo a trabalhar juntos por uma “Europa forte”.
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, prometeu trabalhar com Magyar “para o benefício de ambas as nações, bem como para a paz, segurança e estabilidade na Europa”.
“A Hungria escolheu a Europa”, postou a chefe da União Europeia, Ursula von der Leyen, no X.
Antes da votação, tanto o lado de Orban como o de Magyar alegaram interferência estrangeira durante a campanha.
O vice-presidente dos EUA, JD Vance, visitou a Hungria na semana passada para se reunir com Orban, atacando a alegada interferência na Hungria dos “burocratas” de Bruxelas.
Trump tinha prometido trazer o “poder económico” dos EUA para a Hungria se o partido de Orban garantisse a vitória.
– ‘Derrota do autoritarismo’ –
Neera Tanden, presidente e CEO do Centro para o Progresso Americano, disse que a derrota de Oran foi um “grande golpe para aqueles que olharam para o modelo corrupto de Viktor Orban como um modelo – incluindo o próprio Donald Trump”.
“Esta é uma derrota retumbante do autoritarismo que ecoa muito além das fronteiras da Hungria”, acrescentou Tanden.
Orbán concentrou-se em fazer da Ucrânia o tema central da sua campanha, retratando o país vizinho, que luta contra uma invasão russa, como “hostil” à Hungria.
Ele também prometeu continuar sua repressão contra “falsas organizações da sociedade civil, jornalistas, juízes (e) políticos comprados”.
Os apoiantes do Fidesz reunidos para o evento de observação dos resultados em Budapeste ficaram chocados.
“Sou apoiante do Fidesz de todo o coração”, disse Juliana Varga Szabo, uma professora de 58 anos, à AFP, com lágrimas nos olhos, dizendo que talvez estivesse a viver numa “bolha”.
“Agora essa bolha estourou. Não mudarei meus valores. Teremos apenas que ver o que o futuro traz”, acrescentou ela.




