À medida que a temporada da Copa do Mundo chega ao Brasil obcecado pelo futebol, faixas verdes e amarelas decoram restaurantes, bares e prédios de apartamentos, as ruas ficam cheias de bandeiras e bolas de futebol, e a discussão sobre os amados jogos da seleção nacional é onipresente.
Mas este ano, outro tema assumiu o centro das atenções: mesmo enquanto o país enfrenta um aumento no jogo, a prevalência da publicidade ao jogo deixou algumas pessoas profundamente endividadas e fez com que o número de pessoas que procuram tratamento para a toxicodependência mais do que duplicasse nos últimos cinco anos, de acordo com o Ministério da Saúde do Brasil.
A empresa brasileira de tecnologia financeira Klavi disse em um estudo baseado em uma amostra de 1,2 milhão de pessoas que a proporção de brasileiros que apostam mais do que triplicou desde o início da Copa do Mundo da FIFA, passando de 11% antes do início da Copa do Mundo em maio para cerca de 35% no final de junho.
Os anúncios, que vão além dos intervalos comerciais tradicionais e incluem recomendações de anfitriões ao vivo e promoções de probabilidades em tempo real, provocaram uma nova onda de indignação, com políticos de todo o espectro político a pedirem controlos mais rigorosos.
Quando as apostas desportivas foram legalizadas em 2018, a publicidade e o patrocínio desenfreados, juntamente com um mercado não regulamentado, levaram ao caos, levando o governo a introduzir novas regulamentações em 2023. No início desta semana, o Ministro das Finanças do Brasil, Dario Turigan, disse que o governo anunciaria novas medidas para reforçar a regulamentação.
O Ministério das Finanças do Brasil disse em comunicado à Associated Press na quinta-feira que pediu a dois meios de comunicação e quatro operadoras de jogos que fornecessem explicações sobre conteúdos que podem ter violado a lei. A autoridade também ordenou a suspensão imediata de quaisquer anúncios que violem os regulamentos existentes, acrescentou o ministério.
Um relatório de 2023 da empresa de análise de dados Comscore disse que o Brasil se tornou o terceiro maior mercado de apostas esportivas do mundo, depois dos Estados Unidos e do Reino Unido.
Prevê-se que as apostas e os jogos de azar custem à sociedade brasileira 38,8 mil milhões de reais (7 mil milhões de dólares) anualmente e aumentem o suicídio e a depressão, de acordo com um estudo de 2025 realizado pela organização sem fins lucrativos Health Policy Institute.
“Estamos testemunhando uma tragédia humanitária que se desenrola no Brasil”, disse o senador Eduardo Girão na quinta-feira, durante audiência pública no Senado sobre o assunto. A questão levou músicos como Gilberto Gil e Caetano Veloso a aderirem a um movimento que pede leis mais rígidas.
Impacto na saúde mental
Michael Marcos, um inspetor de trânsito de 22 anos do estado de Alagoas, no nordeste do Brasil, foi um dos que sofreu de ansiedade com o jogo no ano passado. Ele decidiu fazer uma pausa de seis meses antes de retomar o hábito durante a Copa do Mundo.
“Assistir ao Brasil jogar já é uma experiência emocionante. Mas se eu apostar 1.000 reais (US$ 200) neles, a emoção é ainda mais forte porque, quer eu ganhe ou perca dinheiro, há sempre uma sensação de tensão”, disse ele.
Para limitar o impacto na sua saúde mental, Marcos só aposta em equipas que considera ter boas hipóteses de vencer, como a França. Até agora, ele disse que sua estratégia funcionou para ele. Mesmo assim, ele planeja parar de jogar após o jogo.
A CazéTV é uma plataforma de streaming no YouTube e é o único canal no Brasil que detém os direitos de transmissão de todos os 104 jogos, por isso tem sido alvo de um escrutínio particularmente intenso.
A plataforma apresenta publicidade tradicional de apostas, mas os comentadores da CazéTV também promovem as apostas durante os jogos, misturando publicidade com comentários sobre a acção em campo.
“O jogo é direcionado a maiores de 18 anos. Mas quando está embutido no conteúdo (…) qualquer pessoa pode ser exposta a ele, inclusive crianças, adolescentes e outros grupos vulneráveis. A exposição torna-se indiscriminada”, disse Carolina Terra, professora da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.
A Secretaria Nacional do Consumidor, do Ministério da Justiça do Brasil, iniciou uma investigação em 24 de junho sobre possíveis irregularidades durante a transmissão da Copa do Mundo da CazéTV.
Logo em seguida, a agência autorreguladora de publicidade do país lançou três procedimentos relativos às ofertas de apostas, que foram lidos em voz alta por apresentadores e comentaristas. Recomenda-se então pausar a publicidade.
A CazéTV adotará uma abordagem mais específica e conservadora na integração da marca de jogos de azar e seguirá formatos de publicidade mais tradicionais, afirmou a CazéTV em comunicado, acrescentando que sua publicidade está em conformidade com a legislação brasileira.
Gustavo Freitas, publicitário de 34 anos, disse que apostou cerca de US$ 200 desde o início da Copa do Mundo, 10 vezes mais do que costuma apostar em um mês.
Freitas disse que não vê isso como uma forma de renda, mas sim como um passatempo.
“Ninguém acredita que vai ficar rico jogando videogame no fim de semana. O mesmo vale para jogos de azar”, disse ele. “O problema é que você acha que vai encontrar a fórmula perfeita, mas esquece o velho ditado (…): O banco sempre ganha.”
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