Mesmo sem a confirmação de um evento extremo, o estado se prepara para meses de maior calor e ameaças de incêndio

Mapa mostrando ondas de chuva e calor que podem ser causadas pelo El Niño (Foto: NOAA/Via MetSul)

Após semanas de alertas sobre um possível “Super El Niño”, o risco de Mato Grosso do Sul pode ser menor na forma do evento e maior no calendário. As previsões oficiais ainda não confirmam um evento extremo, mas apontam para uma alta probabilidade de El Niño no segundo semestre de 2026, justamente quando o estado normalmente entra na sua fase mais crítica para incêndios florestais.

A formação do El Niño está prevista para o segundo semestre de 2026 com probabilidade superior a 80%, segundo nota técnica de abril elaborada pelo INPE, INMET, Funceme e Censipam. Para Mato Grosso do Sul, o risco está no período entre o fim da seca e a chegada das chuvas, quando o calor e o ar seco aumentam o risco de incêndios no Pantanal e no Cerrado. O Corpo de Bombeiros já prepara reforços para a temporada.

Nota técnica conjunta de abril, elaborada pelo INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), INMET (Instituto Nacional de Meteorologia), Funceme (Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos) e Censipam (Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia, grandes 8% do sistema de proteção estadual). Nino no segundo semestre. O evento pode durar pelo menos até o início de 2027.

A palavra “super”, porém, ainda precisa pisar no freio. O próprio documento afirma que a gravidade do evento “ainda não está claramente definida”, embora as condições atuais indiquem a possibilidade de um El Niño pelo menos moderado. Em termos simples: o fenômeno certamente se formará, mas ainda não é possível afirmar que será extremo.

El Niño é causado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico equatorial. Esse calor altera a circulação do ar e interfere nos padrões de precipitação e temperatura em diferentes partes do planeta. No Brasil, os impactos mais conhecidos são o aumento das chuvas no sul, a diminuição das chuvas no norte e nordeste e o aumento das temperaturas em muitas partes do país.

No Mato Grosso do Sul a história é mais complicada. A nota técnica afirma que o Centro-Oeste não tem uma relação tão forte com El Nino ou La Nina como outras regiões do Brasil. Em outras palavras, resumir a situação local com uma frase simples como “El Niño vai secar MS” não é correto.

O ponto focal do reino é a sequência de meses. O documento indica tendência de aumento de temperaturas em todo o Centro-Oeste, principalmente no final do inverno, primavera e verão. Esse calor, no final do inverno e na primavera, ajuda a reduzir a umidade relativa do ar e aumenta o risco de incêndio.

Para Mato Grosso do Sul, o risco real pode estar nessa janela entre o fim da seca e a chegada sólida das chuvas. É o momento em que a vegetação já está seca, a umidade é baixa, o vento pode espalhar o fogo e qualquer incêndio fora de controle ganha força rapidamente. No Pantanal e no Cerrado essa combinação costuma ter mais peso que o nome técnico do fenômeno.

El Niño: o maior impacto do planeta de junho a setembro (Imagem: ClimateTempo/NOAA)

A própria nota traz à tona uma aparente contradição que ajuda a compreender o problema. Durante os períodos de forte El Niño, as observações indicam maior regularidade das chuvas em partes do Mato Grosso do Sul e Goa no verão e no outono. Isto pode ajudar mais tarde, mas não elimina o perigo anterior. Antes que as chuvas se tornem mais regulares, o estado poderá sentir calor e ar seco justamente durante a estação mais suscetível a incêndios.

É por isso que os alertas dos bombeiros não se baseiam apenas na confirmação de um “Super El Niño”. O CBM/MS (Corpo de Bombeiros Militar de Mato Grosso do Sul) já iniciou os preparativos para o segundo semestre, fortalecendo bases, pessoal, equipamentos e monitoramento. A corporação trabalha na possibilidade de uma temporada intensa, em 2020 e 2024, principalmente após enfrentar a crise de incêndios no Pantanal.

Segundo a corporação, o PEMIF (Plano Estadual de Manejo Integrado de Incêndios) prevê a mobilização de 170 militares dedicados exclusivamente ao combate a incêndios florestais, além do auxílio de brigadas, prefeituras, órgãos ambientais e forças nacionais quando necessário. Também estão previstas até 11 bases avançadas em áreas de difícil acesso, como a região Amolar, no Pantanal.

O estado chegou a 2026 com as últimas manchas Em 2020, considerado o pior ano para incêndios no Pantanal, 3,9 milhões de hectares do bioma foram queimados, incluindo 1,8 milhão no território sul-mato-grossense, segundo dados do LASA (Laboratório de Aplicações Ambientais por Satélites) da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Em 2024, cerca de 1,9 milhão de hectares foram queimados no Mato Grosso do Sul, incluindo cerca de 1,7 milhão no Pantanal, segundo relatório do governo do estado e do Corpo de Bombeiros.

Um mapa de projeção do Pacífico equatorial reforça a visão de atenção. Os modelos climáticos indicam um aquecimento progressivo das águas na região do Niño 3.4, que é utilizada como referência para monitoramento do El Niño. A nota técnica mostra ainda que, em abril, a anomalia negativa no Pacífico equatorial diminuiu e deu lugar a regiões próximas da média ou mais quentes que o normal, padrão consistente com o início do desenvolvimento do evento.

Outro sinal vem da água abaixo da superfície do oceano. O documento aponta anomalias positivas consistentes no Pacífico equatorial até cerca de 300 m de profundidade, com valores acima de 2°C numa ampla faixa e pontos acima de 4°C. Esse calor armazenado abaixo da superfície serve de combustível para a evolução do El Niño nos meses seguintes.

No entanto, a previsão climática não é uma sentença. A própria nota destaca que os efeitos podem variar dependendo das interações com outros sistemas, como as condições do Atlântico tropical. Esse detalhe é importante para o Brasil e Mato Grosso do Sul, porque a chuva e o calor não dependem apenas do Oceano Pacífico. Se um tabuleiro tiver mais peças do que parece, e algumas delas se movem rapidamente.

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