40% das pessoas encarceradas estão envolvidas no tráfico de drogas, um elemento-chave na repressão do Estado ao PCC e ao CV.

Corredores do Presídio Gamelleira, Campo Grande, inaugurados em 2019 (Imagem: Prakash)

A retomada do controle do sistema prisional, um dos pontos centrais do plano “Brasil Contra o Crime Organizado” anunciado há décadas, tornou-se um grande desafio para os governos federal e estaduais devido ao empoderamento financeiro e à violência armada de organizações criminosas como o PCC e o Comando Vermelho.

O governo federal anunciou o plano Brasil Contra o Crime Organizado com investimento de R$ 324 milhões para converter 138 presídios estaduais em unidades de segurança máxima. Mato Grosso do Sul é parte central da estratégia, com 18 mil presos e um corredor de drogas e armas na fronteira entre o Paraguai e a Bolívia. Especialistas alertam que o sucesso depende da repressão policial e institucional da corrupção.

A região de Mato Grosso do Sul, na fronteira do Paraguai e da Bolívia, reconhecido corredor de armas e drogas que conquistou mercados internacionais, reúne as condições alvo do crime: fronteira parcialmente protegida, espaço para atividades ilegais e cadeias controladas por gangues.

Com cerca de 18 mil presos e pouco mais de 9,5 mil vagas, Mato Grosso do Sul vive há anos uma superlotação estrutural. O tráfico de drogas é a principal causa de encarceramento, representando entre 35% e 40% da população carcerária. Isso significa que 6.300 a 7.200 presos estão diretamente ligados a crimes relacionados com drogas.

A situação é agravada pela natureza transnacional do sistema penitenciário de Mato Grosso do Sul. Em março deste ano, havia cerca de 490 estrangeiros detidos no estado, quase o dobro do número registado há um ano. A maioria são paraguaios e bolivianos, nacionalidades ligadas às rotas de cocaína e maconha que entram no Brasil pela fronteira seca. Coromba, Dourados e Campo Grande concentraram grande parte desses presos.

O cenário ajuda a explicar por que Mato Grosso do Sul se tornou uma parte importante da estratégia nacional de combate ao crime organizado. As fronteiras onde estão localizadas as cidades-polo, como Corumbá e Ponta Porã, além das rotas comprometidas, são vistas pelos órgãos de inteligência como local de gestão operacional dos próprios grupos.

escritório do crime

O governo federal anunciou que 138 presídios estaduais adotarão protocolos inspirados em medidas de segurança máxima nas penitenciárias federais, em um esforço para “estrangular” os chamados “escritórios do crime” dentro das prisões. Segundo avaliação da Agepen (Agência de Administração do Sistema Penitenciário Estadual) de Mato Grosso do Sul, o número de unidades com padrões máximos de segurança pode ficar entre cinco e oito.

O plano prevê investimento de cerca de R$ 324 milhões e, nos estados, replicação das normas penitenciárias federais. As unidades foram escolhidas com base em inteligência e mapas de equipe. Juntos, eles abrigam 158 mil presos, o equivalente a 18,7% da população carcerária do país, e abrigam 80% dos líderes criminosos monitorados pelas autoridades.

A estratégia do governo Lula baseia-se no diagnóstico de que as gangues transformaram as prisões em centros de comando do tráfico de drogas e da gestão do crime e dos lucros que, sinal de um período de exclusão estatal generalizada, atingiram o coração da economia formal, da política e do sistema financeiro nacional.

O plano prevê o bloqueio de comunicações secretas, a remoção de telemóveis, armas e drogas, a modernização do sistema penal e o reforço da inteligência prisional. As medidas anunciadas incluem bloqueadores de celulares, operações de busca permanente, criação de um Centro Nacional de Inteligência Criminal, padronização de protocolos e capacitação de policiais criminais.

A novidade é que o sistema prisional passou a ocupar uma posição central na política nacional de segurança pública, com amplo apoio das autoridades sul-mato-grossenses. A avaliação do governo é que o PCC evoluiu de uma facção caracterizada pela insurgência na década de 1990 para um império financeiro apoiado pelo tráfico internacional de cocaína, com liderança poderosa dentro das prisões.

Os especialistas apontam, no entanto, um ponto fraco do programa: a falta de um enfoque mais claro no combate à corrupção policial e institucional, muitas vezes ligada à expansão do crime organizado.

Regra do partido

O historiador e sociólogo Francisco Carlos Teixeira avaliou que a relativa “pacificação” das prisões brasileiras nas últimas décadas está ligada à consolidação do poder das gangues dentro do sistema prisional.

Segundo ele, a redução da insurreição e até de alguns crimes violentos contra a propriedade estará associada a uma espécie de acomodação informal entre o Estado e os grupos criminosos. “As facções querem lucro e não estão interessadas na violência que o Estado enfrenta”. Na avaliação do professor, o Estado começará de fato a conviver com a ordem imposta pelas facções dentro do presídio, até que esse regime reduza a rebelião e a criminalidade com repercussões sociais mais amplas.

A tese é confirmada por estudos que indicam a transformação de facções em estruturas de governança criminosa dentro dos presídios estaduais. Em vez da violência fragmentada que caracterizou o sistema penal nas décadas de 1980 e 1990, grupos como o PCC começaram a impor a ordem interna, a controlar os conflitos e a restringir as práticas excessivamente procuradoras de atenção do Estado.

Há uma nova abordagem: o tráfico internacional de drogas tornou-se muito mais lucrativo e estratégico do que crimes como assaltos a bancos ou sequestros, impondo um novo estilo de sistema para gangues baseado na estabilidade das cadeias para gerar lucros enormes.

CEO da Agepen, Rodrigo Rossi Maiorchini (Foto: Arquivo/Agepen)

Modelo de segurança máxima

O presidente da Agepen, Rodrigo Rossi Mayorcini, avaliou que o plano federal “chega na hora certa” para Mato Grosso do Sul, especialmente dada a posição estratégica do estado nas rotas internacionais de tráfico.

Segundo ele, o diferencial do programa é que ele reconhece o sistema prisional como parte central da segurança pública. “Sem olhar para o sistema prisional, sem esse fortalecimento da estrutura prisional, não há como falar em combate às quadrilhas criminosas”, disse.

Mayorcini confirmou que Mato Grosso do Sul deverá receber parte de suas 138 unidades prisionais que adotarão protocolos inspirados no sistema de segurança máxima federal. Embora o número ainda não tenha sido finalizado, ele disse que o estado poderá ter vários presídios que se enquadrem nesse modelo, inclusive unidades na capital, que já abriga a penitenciária federal, Dourados, Navira e possivelmente uma série de áreas fronteiriças, como Karimba.

O diretor destacou que o combate às gangues passou principalmente pelo bloqueio de comunicações secretas entre presídios. Segundo ele, o governo federal deve fornecer equipamentos sofisticados, como bloqueadores de celulares, scanners corporais, aparelhos de raios X, drones infravermelhos, veículos e equipamentos de inteligência para impedir a entrada de celulares, armas e drogas nas unidades. “No momento em que um telefone celular chega, as equipes começam a trabalhar de acordo com as instruções internas”, disse ele. Dada a abordagem deliberativa do Estado, a acessibilidade da comunicação é uma das principais ferramentas das partes.

Na avaliação de Mayorcini, Mato Grosso do Sul é particularmente vulnerável devido às suas duas fronteiras terrestres com o Paraguai e a Bolívia. O líder reconheceu que os líderes criminosos continuam a exercer influência dentro do sistema penal e disse que a prioridade é evitar ordens de saída da prisão para encorajar o crime extraterritorial. “Algumas encomendas vêm de lá”, declarou.

O diretor destacou ainda a integração entre o sistema penal estadual e o sistema penal federal. Segundo ele, detidos estrangeiros ou considerados extremamente perigosos podem ser transferidos para penitenciárias federais com ajuda da inteligência e do Judiciário federal.

O procurador de São Paulo, Roberto Livianu, presidente do INAC (Instituto Não Aceito Corrupção), avaliou que o plano representa uma iniciativa “admirável”, mas mantém foco especial no combate à corrupção dentro das fronteiras e do público e do aparato policial.

Segundo Livianu, Mato Grosso do Sul ocupa uma posição estratégica porque concentra importantes rotas do tráfico internacional de drogas e armas. Para isso, os estados fronteiriços têm de se comportar de forma diferente, uma vez que os gangues deixam de operar como criminosos comuns e passam a operar com capacidades sofisticadas de lógica empresarial e retórica internacional. “O crime organizado tornou-se mais forte, profissionalizou-se, as suas actividades têm características comerciais”, disse.

O procurador considera fundamental que o combate às gangues envolva inteligência, planejamento e atuação coordenada entre Ministério Público, Judiciário, Polícia e Sistema Penal. “Não é um processo isolado com o qual você será capaz de lidar”, disse ele.

Procurador de Justiça de São Paulo, Roberto Livianu, presidente do INAC (Instituto Não Aceito Corrupção) (Foto: Divulgação)

prioridade

Livianu também chamou a atenção para o peso da fronteira no avanço do PCC e do Comando Vermelho. Na sua avaliação, o Brasil tem historicamente negligenciado os controles de fronteira, especialmente em relação ao tráfico de drogas, uma importante fonte de financiamento para gangues. “Não adianta olhar apenas para armas e não olhar para drogas”, disse, defendendo prioridade absoluta para áreas como a fronteira do Mato Grosso do Sul com o Paraguai e a Bolívia.

O presidente do INAC avalia ainda que o combate ao crime organizado perde força quando o combate à corrupção policial e institucional não é uma prioridade. “Temos um grave problema de corrupção na polícia e que precisa de ser abordado com muita seriedade e rigor”, declarou. “Se você não enfrentar isso, estará colocando em risco todo esse importante trabalho policial.”

O plano de Lula para a segurança pode ser selectivo, como ficou claro quando foi anunciado nas vésperas das eleições, surge décadas depois de ter sido descartado por governos civis que não sabiam como fazer a transição da segurança entre a ditadura e a redemocratização, mas o quadro está criado para o conflito. “Em algum momento é preciso agir. Quanto antes acontecer, melhor”, observa Livianu. O sucesso ou o fracasso, longe da ideologia ou do partido, dependem agora do interesse público sincero daqueles que estão no poder.

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