Última atualização:

Em entrevista à CNN-News18, Luciana Santos também explicou por que cimeiras como a de Deli são importantes, dizendo que ajudam a gerar impulso político para democratizar o acesso à IA

fonte
À medida que a IA se torna mais difundida, cresce a necessidade de uma governação forte, disse Santos. Imagem/Instagram

À medida que a IA se torna mais difundida, cresce a necessidade de uma governação forte, disse Santos. Imagem/Instagram

News18 no AI Summit

Enquanto Nova Deli é anfitriã da AI Impact Summit, de 16 a 21 de fevereiro, os líderes globais convergiram na Índia para debater uma questão definidora: quem molda o futuro da Inteligência Artificial e nos termos de quem? Entre os intervenientes está o Brasil, sublinhando o crescente impulso do Sul Global para recuperar a agência nas tecnologias emergentes. O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, também está na Índia esta semana, sinalizando como a IA, as parcerias tecnológicas e a soberania digital se tornaram centrais para o envolvimento estratégico de Brasília com Nova Delhi.

Neste contexto, a CNN-News18 conversou com Luciana Santos, Ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação do Brasil, que explicou por que o Brasil vê a Índia não apenas como um parceiro, mas como co-modelador de uma ordem de IA mais inclusiva, onde a inovação é guiada pelo interesse público, pela governança democrática e pelas realidades do Sul Global, em vez de ser dominada por alguns atores poderosos.

Trechos editados:

O Brasil fala frequentemente da IA ​​como uma ferramenta para a inclusão social, mas grandes partes do Sul Global continuam pobres em termos de dados e de computação. Como o Brasil evita realisticamente que a IA aprofunde a desigualdade, em vez de reduzi-la?

O risco de que a inteligência artificial possa aprofundar a desigualdade é real, especialmente quando grande parte do Sul Global ainda enfrenta lacunas estruturais na disponibilidade de dados, infra-estruturas informáticas e capital humano qualificado. A resposta do Brasil é tratar a IA não apenas como um impulso tecnológico, mas como um projeto de desenvolvimento nacional enraizado na inclusão social e na soberania digital.

Essa abordagem sustenta o Plano de IA 2024-2028 do Brasil, apoiado por 23 mil milhões de reais (cerca de 4,4 mil milhões de dólares) em investimento público, com quase 30% já implementados. O foco está em combater, em escala, os motores estruturais da desigualdade.

Desde a construção de infraestrutura de supercomputação de ponta com energia renovável até o desenvolvimento de modelos de IA em português treinados nos diversos dados do próprio Brasil, o objetivo é reduzir a dependência externa e evitar preconceitos importados.

Igualmente central é a formação e a requalificação em grande escala, juntamente com a utilização estratégica da IA ​​nos serviços públicos para melhorar a prestação, especialmente nos setores sociais.

O Brasil acredita que a inclusão não virá automaticamente da inovação. Deve ser concebida através do investimento público, do reforço das capacidades locais e da governação democrática, para que os ganhos da IA ​​sejam amplamente partilhados e não concentrados em algumas regiões.

A Índia está a posicionar-se como uma ponte de IA entre o Ocidente e o Sul Global. O Brasil vê a Índia como um parceiro genuíno na definição de modelos alternativos de IA, ou o Sul Global ainda reage amplamente às regras estabelecidas noutros lugares?

O Brasil vê claramente a Índia como um parceiro estratégico. Sendo grandes democracias do Sul Global que enfrentam desafios estruturais semelhantes, ambos os países partilham a responsabilidade de orientar o progresso científico e tecnológico para o bem público.

Em vez de simplesmente se adaptarem às regras estabelecidas noutros lugares, o Brasil e a Índia estão bem posicionados para moldar a sua própria agenda, baseada na democracia, no desenvolvimento sustentável e na inclusão social.

Isto já está tomando forma através de parcerias entre centros de IA brasileiros e indianos, incluindo um projeto piloto sobre colaboração transfronteiriça de dados segura e que preserva a privacidade para IA médica. Usando a arquitetura de capacitação e proteção de dados da Índia, os modelos de IA podem ser treinados sem que os dados brutos saiam do controle soberano dos provedores de dados.

Uma cooperação mais forte também aumenta a nossa voz colectiva nos debates globais sobre governação da IA, pressionando por quadros que reflectem as realidades do Sul Global, e não apenas as prioridades das grandes potências tecnológicas.

É por isso que cimeiras como esta sobre o impacto global da IA ​​são importantes. Geram impulso político para democratizar o acesso à IA e acelerar o seu desenvolvimento em todo o Sul Global.

Assim, o Sul Global não precisa de ser reativo. Uma cooperação estratégica mais profunda fortalece a nossa capacidade de propor, negociar e construir uma governação internacional de IA mais equilibrada e inclusiva.

O Brasil adotou uma postura regulatória mais dura em relação às Big Tech do que muitas economias emergentes. Você teme que uma regulamentação mais rígida sobre IA possa retardar a inovação ou acredita que a inovação descontrolada é o maior risco neste momento?

Partimos de uma premissa simples: a verdadeira questão não é regular ou inovar, mas como regular de uma forma que permita uma inovação sustentável e confiável.

À medida que a IA se torna mais difundida, aumenta a necessidade de uma governação forte. Regras claras são essenciais para orientar o desenvolvimento, a implantação e a utilização da IA ​​de forma segura, ética e transparente, para que os seus benefícios sirvam verdadeiramente a sociedade. Sem eles, riscos como a discriminação algorítmica ou as violações dos direitos fundamentais podem minar a confiança do público e, ao longo do tempo, minar a própria inovação.

O Brasil tem, portanto, buscado uma abordagem equilibrada. Seu projeto de lei sobre IA, aprovado pelo Senado em dezembro de 2024 e agora tramitando na Câmara dos Deputados, adota uma estrutura baseada em risco que prioriza os direitos dos usuários e a governança participativa. Obrigações mais rigorosas concentram-se em sistemas de alto risco, enquanto as aplicações de menor risco são poupadas de encargos desnecessários, preservando espaço para experimentação e novos participantes.

Para reforçar esse arcabouço, um projeto de lei complementar enviado em dezembro de 2025 propõe a criação de um Sistema Nacional de Desenvolvimento, Regulação e Governança da IA, juntamente com um Conselho Brasileiro de IA. Ao reunir a Autoridade Nacional de Proteção de Dados e os principais reguladores, o modelo visa proporcionar coordenação, previsibilidade e clareza regulatória, todos essenciais para o investimento e a inovação.

Grande parte do ecossistema de IA do Brasil ainda depende de infraestrutura de nuvem estrangeira e de chips importados. O Brasil pode reivindicar a soberania da IA ​​sem controle sobre computadores e semicondutores críticos, e que lições ele tira das dificuldades da Índia na fabricação de chips?

Em todo o mundo, os países debatem cada vez mais o que significa soberania digital nos seus próprios contextos nacionais. Uma visão amplamente partilhada define-a como a capacidade de compreender como funcionam as tecnologias digitais, de as desenvolver e de as regular de forma eficaz.

Nesta perspectiva, a soberania não é construída através do isolamento, mas através de uma autonomia tecnológica mais forte, alcançada através da abertura, cooperação e capacitação interna. Nesse contexto, a Índia surge como parceira estratégica do Brasil, ampliando oportunidades de intercâmbio tecnológico, inovação conjunta e soluções alinhadas às prioridades nacionais, especialmente em semicondutores, inteligência artificial, computação de alto desempenho, Internet das Coisas, blockchain e comunicações avançadas como 5G e 6G.

O Brasil também está adotando uma abordagem estratégica para fortalecer seu ecossistema de semicondutores, com foco no desenvolvimento científico, treinamento de habilidades e integração mais profunda nas cadeias de valor globais por meio de programas robustos de força de trabalho e incentivos para expandir a cadeia de fornecimento de semicondutores.

Ao mesmo tempo, no âmbito do Plano de IA do Brasil, o país está construindo uma infraestrutura nacional de dados do setor público, incluindo sistemas de nuvem soberanos desenvolvidos através de parcerias entre empresas públicas de dados e vários provedores de nuvem. Esses acordos são concebidos para garantir a soberania digital, a transparência, o controle, a confiança e a segurança cibernética.

À medida que os BRICS expandem o seu foco na cooperação tecnológica, vê espaço para um quadro de IA liderado pelos BRICS que desafie os modelos de governação dominados pelo Ocidente, ou as diferenças internas são demasiado grandes para serem superadas?

O Brasil é participante ativo em vários fóruns multilaterais sobre governança de IA, enfatizando consistentemente a necessidade de promover a IA para o benefício de todas as pessoas, nações, seres vivos e do planeta. Esta abordagem é multilateral por natureza, reunindo governos, o setor privado, o meio académico e a sociedade civil.

Dentro do BRICS, os países membros avançaram esta visão através de debates e conferências destinadas a construir consenso, respeitando ao mesmo tempo a diversidade de cada país e as realidades nacionais específicas.

Durante a presidência brasileira do BRICS, o bloco discutiu e adotou uma declaração sobre governança de IA e princípios para o uso de inteligência artificial, delineando claramente áreas de interesse comum. A liderança do Brasil marcou um passo importante em direção à construção de consenso e lançou as bases para discussões mais profundas dentro dos BRICS no futuro.

Finalmente, da sua perspectiva na cimeira, qual foi o momento mais encorajador que testemunhou aqui – e qual é a verdade mais incómoda sobre as ambições de IA do Sul Global que os líderes ainda relutam em admitir?

Considero encorajador ver o Sul Global liderando um processo complexo como uma cimeira e uma agenda sobre IA. Isto não só é possível, como é necessário. No entanto, continuamos fortemente dependentes de plataformas, modelos e infraestruturas controladas por um punhado de países e empresas.

Sem cooperação estratégica, investimento a longo prazo e negociação colectiva, existe um risco real de reproduzir na IA as mesmas desigualdades tecnológicas do passado. Quando alguns intervenientes controlam algoritmos e infraestruturas digitais, isto já não é inovação, é dominação.

Os países em desenvolvimento não podem continuar a ser meros consumidores de tecnologia. Devem construir as suas próprias capacidades através da transferência de tecnologia, do desenvolvimento de talentos e de infra-estruturas soberanas.

Notícias Índia O Sul Global não pode simplesmente consumir IA, devemos construí-la nós mesmos: Ministro da Tecnologia do Brasil | Exclusivo
Isenção de responsabilidade: os comentários refletem as opiniões dos usuários, não as do News18. Por favor, mantenha as discussões respeitosas e construtivas. Comentários abusivos, difamatórios ou ilegais serão removidos. News18 pode desativar qualquer comentário a seu critério. Ao postar, você concorda com nossos Termos de Uso e política de Privacidade.

Leia mais

Source link

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui