Todos os anúncios começam iguais. Poderia ser um cabeleireiro, uma tia ou um membro da família discutindo a Copa do Mundo da FIFA com outra pessoa, mas em todos os casos eles acham que o Egito voltará para casa após a fase de grupos.
Depois, um jogador de futebol egípcio respondeu: “Para todos os que duvidam, desta vez ficámos mais tempo”.
As palavras ressoaram como nunca antes no país de 120 milhões de habitantes, com os torcedores egípcios esperando ansiosamente pela partida final da fase de grupos que poderá levar os faraós, como é apelidada a seleção nacional, a um território desconhecido: a fase eliminatória.
Veja por que esses anúncios capturam o zeitgeist egípcio:
O fraco desempenho do Egito na Copa do Mundo
Já em 1934, o Egito tornou-se o primeiro país africano e árabe a participar da Copa do Mundo. O Egito venceu a Copa das Nações Africanas um recorde de sete vezes. O futebol não é apenas um desporto no Egipto, mas uma identidade nacional, e os Faraós têm sido desde há muito uma fonte de verdadeiro orgulho e fé.
Mas a Copa do Mundo sempre conta uma história diferente. Antes desta Copa do Mundo, o Egito havia se classificado apenas três vezes – em 1934, 1990 e 2018.
Nunca ganhou um jogo. Os torcedores ainda são assombrados pela dolorosa lembrança da derrota nos pênaltis para o Senegal, que eliminou completamente o Egito da Copa do Mundo de 2022, no Catar.
O que há de diferente desta vez?
Tudo – ou assim parece.
Depois de dois jogos na Copa do Mundo, o Egito ocupa o primeiro lugar do Grupo G, à frente de Irã, Bélgica e Nova Zelândia.
O Egito, 26º colocado, empatou em 1 a 1 com a Bélgica, 10ª colocada no ranking mundial, na primeira partida. Posteriormente, a seleção chinesa derrotou a seleção neozelandesa, de classificação inferior, por 3-1.
Os quatro pontos são os maiores gols que o Egito já marcou em uma Copa do Mundo. Seus quatro gols são os maiores do Egito na Copa do Mundo.
Agora, na noite de sexta-feira em Seattle – e na manhã de sábado no Egito – a seleção enfrentará o Irã em seu último jogo da fase de grupos. Uma vitória ou um empate garantiriam que a seleção egípcia chegasse à fase eliminatória pela primeira vez.
Se o Egito perder para o Irã, ainda poderá chegar às oitavas de final, mas seu destino dependerá do jogo da Bélgica contra a Nova Zelândia, que será realizado ao mesmo tempo, e possivelmente dos resultados de outras partidas da fase de grupos. Dos 12 times terceiros colocados do grupo, 8 também avançam para a próxima fase.
Em suma, o Egipto está numa posição sem precedentes – e apenas uma série de raras permutações pode negar-lhe as suas hipóteses.
Mas não é apenas um show. Para muitos torcedores, parte do motivo pelo qual este ano parece diferente é a identidade da figura principal parada do lado de fora do estádio, próximo ao banco de reservas egípcio.
Hossam Hassan é o maior goleador de todos os tempos do Egito e uma das figuras mais emblemáticas da história do futebol do país. Em 1990, seu gol encerrou uma espera de 56 anos e ajudou o Egito a entrar na Copa do Mundo da Itália. Agora, mais de trinta anos depois, ele treina a seleção nacional, tornando-se o primeiro egípcio a chegar à Copa do Mundo como jogador e treinador.
Para os fãs mais velhos, a sua presença traz a memória de uma época em que o Egito acreditava genuinamente que poderia deixar uma marca no cenário mundial.
Então, do que realmente tratam esses anúncios?
Eles não estão realmente zombando da equipe. Eles zombaram da expectativa arraigada de que o Egito não iria muito longe. Muitos acreditam que essa expectativa vai além do futebol. Anos de dificuldades económicas e incerteza política deixaram muitos egípcios com a sensação de que o pior cenário se tornou senso comum. Eles se protegem da decepção. Eles acham que algo não funcionará até que não funcione.
Isto é também o que cria alguma divisão na campanha. Para alguns espectadores, o humor parecia honesto – um reflexo dos hábitos que os fãs sabiam que tinham. Isso levanta uma questão real: por que as baixas expectativas se tornaram tão normais? Outros argumentam que estes anúncios podem perpetuar o mesmo sentimento de baixas expectativas, ou mesmo de aceitabilidade.
Independentemente disso, eles destacaram como a Copa do Mundo de 2026 reacendeu a confiança dos torcedores egípcios que aguardavam o jogo com o Irã. Uma campanha publicitária que desafia os que duvidam reflectiu as esperanças, dúvidas e debates mais amplos em torno dos Faraós.






