Lucélia Santos balança a cabeça e ri, como se ainda hoje tentasse descobrir os números. Mas quando a atriz brasileira desembarcou em Pequim em 1985, foi porque mais de 300 milhões de pessoas votaram nela no prêmio anual China TV Golden Eagle Awards.
Além disso, a série em que Santos estrelou — Escrava Isaura (Isaura: Escrava) – tornou-se uma sensação cultural no país numa época em que mais de 450 milhões de telespectadores assistiam TV todas as semanas ainda era uma experiência comunitária.
“Honestamente, fiquei chocado com essa resposta”, diz Santos. “Isso era algo que eu sabia que iria valorizar pelo resto da minha vida, mas em termos de todas as emoções, não consegui processar na época. Só quando estava em trânsito por Hong Kong é que fui capaz de parar e pensar sobre isso e deixar minhas emoções se acalmarem.
Santos retornou à China na semana passada como parte de um grupo saudável de brasileiros que compareceram ao Festival Internacional de Cinema de Xangai e ao Mercado Internacional de Cinema e TV de Xangai. Clássicos brasileiros indicados ao Oscar foram exibidos Estação Central (1998) e Hora da estrela (1985) entre eles – na seção Brasil em Foco, uma celebração das duas nações que designa 2026 como o “Ano da Cultura China-Brasil” para comemorar mais de 75 anos de relações diplomáticas.
Tem havido um grande impulso para o conteúdo brasileiro à medida que o país sul-americano tenta abrir caminhos para os mercados globais.
Escrava Apresentava Santos no papel-título e acompanhava suas lutas diárias no Império Brasileiro do século XIX. A série, que consistia em mais de 100 episódios, acabou sendo lançada em quase 80 países.
Numa altura em que a China ainda estava a menos de uma década da reforma, o programa foi transmitido pela primeira vez na Televisão de Pequim em 1984, mas graças à sua popularidade instantânea, alcançou rapidamente uma audiência nacional na Televisão Central da China.
“Acho que as pessoas conseguem reconhecer o contraste entre os oprimidos e os opressores”, diz Santos. “De modo geral, pessoas de diferentes origens, culturas e nacionalidades certamente compartilham isso. Deste personagem principal ( Escrava) e a partir de suas experiências as pessoas perceberam a dor entre aqueles que tinham poder e aqueles que não tinham, e acho que isso ressoou bem com o público em todo o mundo.”
Quando o Santos chegou à China, o Golden Eagle Awards havia sido realizado apenas três vezes e nenhum jogador estrangeiro havia recebido o prêmio antes. Mas a popularidade de Santos era tão grande que os organizadores criaram um especialmente para ele.
“Antes de vir para a China, eu não tinha quase nenhum conhecimento sobre este país”, diz ele. “Os dois países eram diferentes em muitos aspectos na época. Lembro-me de que era um país bastante horizontal ou plano na época, com poucos arranha-céus e edifícios altos. Tudo era bastante unificado em termos das roupas que as pessoas usavam. A cor era praticamente azul em todos os lugares, e isso mostra todas as diferenças que tínhamos na época, tanto visuais como estéticas e culturais.”
Posteriormente, Santos usou sua popularidade na China para ajudar a melhorar os laços culturais e comerciais entre os dois países e, em 2004, recebeu a medalha Jóia da China por seu trabalho. Ainda hoje, diz ele, os brasileiros têm dificuldade em entender o quão popular ele era e ainda é do outro lado do mundo. Mesmo assim, Santos tem facilidade para voltar à vida normal.
“Sou uma alma simples e isso significa que meu estilo de vida é simples”, diz Santos. “É muito difícil para mim me deixar levar pela fantasia de ser um superstar. Meu pai era um trabalhador e eu não cresci com uma colher de prata. Lembro-me da importância do trabalho e é muito difícil para mim ser pego nessa ideia de ser um superstar. Sempre fui uma pessoa com os pés no chão, então é muito fácil para mim voltar ao meu estilo de vida normal. Eu ainda faço o trabalho doméstico em minha família, então a vida é mantida simples.”







