Numa mudança significativa na política externa, a Bolívia reabriu as suas portas à Administração Antidrogas dos Estados Unidos (DEA).

A medida, confirmada na segunda-feira, põe fim a um hiato de quase duas décadas nos esforços bilaterais para conter o tráfico de drogas.

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O Ministro do Governo boliviano, Marco Oviedo, disse à mídia local esta semana que agentes da DEA já estavam operando no país.

“A DEA está na Bolívia”, disse ele. “Tal como a DEA está agora presente, também contamos com a cooperação de órgãos europeus de inteligência e de polícia.”

Oviedo explicou que o foco inicial dos esforços de aplicação da lei seria reforçar a vigilância das fronteiras e desmantelar as redes de tráfico.

Ele acrescentou que a cooperação com a DEA e as agências europeias foi apenas o começo dos esforços internacionais ampliados da Bolívia.

“Queremos também a participação das agências antinarcóticos dos países vizinhos”, disse Oviedo.

Fim da ordem de Morales

O anúncio marca o fim de uma ordem emitida pelo ex-presidente de esquerda Evo Morales em 2008, expulsando efectivamente todos os agentes da DEA do país.

Morales, o líder na altura do Movimento para o Socialismo (MAS) da Bolívia, acusou os EUA de usarem os esforços de repressão às drogas para pressionar os países da América Latina a curvarem-se à sua agenda política e económica.

Sob Morales, toda a cooperação antidrogas com os EUA foi interrompida e ele recusou-se a permitir a entrada de agentes da DEA no país, acusando-os de desestabilizar o seu governo. As relações diplomáticas também foram suspensas.

Por sua vez, o MAS recebeu um forte apoio das zonas rurais da Bolívia, onde o cultivo da coca, a matéria-prima da cocaína, é um motor económico fundamental.

A Bolívia, juntamente com outros países andinos como a Colômbia e o Peru, é um importante produtor de coca, que tem usos tradicionais, inclusive como remédio para o mal da altitude. O próprio Morales liderou um sindicato de produtores de coca, ou cocaleros, antes de assumir o cargo.

Os defensores acusaram a “guerra às drogas” militarista dos EUA de prejudicar os agricultores rurais empobrecidos através da erradicação forçada das culturas de coca. Tais campanhas, argumentam eles, podem deixar os agricultores sem meios de se sustentarem a si próprios e às suas famílias.

O MAS permaneceu no poder desde o início do mandato de Morales, em 2006, até 2025, quando a sua coligação se fraturou devido à instabilidade económica e aos combates internos.

Nova direção política

Em Outubro de 2025, dois candidatos de direita passaram a uma segunda volta para a presidência: o centrista Rodrigo Paz do Partido Democrata Cristão e um antigo presidente de direita, Jorge Quiroga.

Foi o primeiro segundo turno presidencial nos tempos modernos para a Bolívia e marcou um afastamento acentuado de duas décadas de governo socialista.

Ambos os candidatos fizeram da melhoria do relacionamento com os EUA um pilar central das suas campanhas, considerando-a essencial para resolver a grave crise económica da Bolívia.

Paz, que estudou em Washington, DC, argumentou que a normalização dos laços atrairia o investimento internacional necessário para modernizar os sectores da energia e do lítio.

Entretanto, Quiroga, um conservador que estudou na Texas A&M University, fez campanha com base numa plataforma mais agressiva, incluindo austeridade fiscal e parcerias de segurança com os EUA.

Seu candidato à vice-presidência, Juan Pablo Velasco, é creditado por popularizar o slogan “Make Bolivia Sexy Again”, uma variação do slogan do presidente dos EUA, Donald Trump, “Make America Great Again”.

Paz finalmente emergiu como o vencedor da disputa, com quase 54,9% dos votos. Após a sua tomada de posse em Novembro, Paz agiu rapidamente para cumprir as suas promessas, restaurando os laços diplomáticos com os EUA.

Os EUA, entretanto, chamaram a presidência de Paz de “oportunidade transformadora”para a região.

No início deste mês, tanto a Bolívia como os EUA concordaram em nomear embaixadores nos países um do outro pela primeira vez em quase 18 anos.

A incerteza permanece

Mas não está claro até que ponto a DEA irá operar na Bolívia. Líderes de esquerda como Morales continuam a ter fortes bolsas de apoio, especialmente nas zonas montanhosas e rurais.

O ministro das Relações Exteriores da Bolívia, Fernando Aramayo, disse que ainda estão em andamento negociações para finalizar as áreas específicas de cooperação entre seu país e a DEA, bem como os limites operacionais para a agência dos EUA.

Um acordo completo delineando o escopo das atividades da agência é esperado nos próximos meses.

Desde que regressou ao cargo, em 20 de janeiro de 2025, Trump intensificou a campanha dos EUA contra o tráfico de droga na América Latina, nomeadamente ao designar vários grandes cartéis como “organizações terroristas estrangeiras”.

Trump também pressionou os governos latino-americanos a tomarem medidas mais agressivas contra o comércio ilícito de drogas, utilizando sanções económicas e ameaças militares como alavanca.

Já, no final de Dezembro e início de Janeiro, Trump autorizou dois ataques à Venezuela com a premissa de combater o tráfico de drogas.

Um deles, em 29 de dezembro, teve como alvo um porto que a administração Trump disse ser usado para contrabando de drogas. A segunda, em 3 de janeiro, resultou em múltiplas explosões, dezenas de mortos e no sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro. Ele permanece sob custódia nos EUA, onde enfrenta acusações de tráfico de drogas e porte de armas.

Os críticos argumentaram que a campanha antidrogas de Trump confundiu a linha entre a aplicação da lei e as atividades militares.

O uso crescente da força militar contra suspeitos de crimes levantou preocupações de que os direitos humanos estão a ser violados e os processos legais contornados, nomeadamente através do recurso a execuções extrajudiciais.

Um exemplo surgiu como parte de uma campanha militar chamada Operação Southern Spear.

Em 2 de Setembro, os EUA anunciaram o primeiro de quase 44 “ataques cinéticos letais” contra navios suspeitos de contrabando de drogas nas Caraíbas e no Pacífico Oriental.

Cerca de 150 pessoas foram mortas nos ataques. A Operação Southern Spear continuou, apesar de organizações internacionais como as Nações Unidas questionarem a sua legalidade e apelarem ao seu fim.

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