O presidente dos EUA, Donald Trump, recuou na quarta-feira nas ameaças de tomar a Groenlândia pela força da aliada Dinamarca, anunciando um acordo vago que visa garantir a segurança do território do Ártico.

Trump classificou a sua retirada – levantando também a promessa de sanções contra nações europeias que se manifestaram contra as ameaças à Dinamarca – como uma vitória, dizendo que o acordo dá a Washington “tudo o que queríamos”.

O acordo, disse ele aos jornalistas no Fórum Económico Mundial em Davos, foi negociado com o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, e duraria “para sempre”.

“Acho que isso coloca todos numa posição muito boa, especialmente no que diz respeito à segurança, aos minerais e a tudo o resto”, disse Trump, horas depois de um discurso em que pareceu remover a ameaça de uso da força para tomar a Gronelândia.

No entanto, não houve sinal de que Trump tivesse conseguido cumprir a sua repetida promessa de tornar a Gronelândia parte dos Estados Unidos.

Quando questionado se a Dinamarca continuaria a controlar o território, Rutte disse que o assunto da soberania da Gronelândia “não surgiu” nas suas conversações com Trump.

Falando ao “Relatório Especial com Bret Baier” da Fox News, Rutte deu poucos detalhes sobre qual poderia ser o novo estatuto da Gronelândia, apenas dizendo que a NATO continuaria a trabalhar para proteger a região do Árctico de adversários como a Rússia ou a China.

Entretanto, o chefe da NATO disse à AFP que “ainda há muito trabalho a fazer”.

Trump disse numa publicação nas redes sociais que iria eliminar as tarifas de até 25 por cento ameaçadas contra a Dinamarca e outros aliados europeus que enviaram tropas para a Gronelândia em solidariedade, incluindo Grã-Bretanha, França e Alemanha.

A porta-voz da NATO, Allison Hart, disse que a Dinamarca, a Gronelândia e os Estados Unidos negociarão para “garantir que a Rússia e a China nunca ganhem uma posição segura – económica ou militarmente – na Gronelândia” – uma das principais preocupações declaradas de Trump.

– Algum alívio na Europa, nos mercados –

Os mercados globais que tinham sido abalados pela ruptura e pela ameaça de tarifas viram alívio, com os principais índices de Wall Street a subir.

As ameaças de Trump desencadearam uma das maiores crises transatlânticas em décadas, com avisos de que ele poderia, sozinho, destruir a NATO através da agressão contra um colega membro.

A sua aparente reviravolta trouxe um alívio reservado à Dinamarca, há muito um firme aliado dos EUA, onde a linguagem belicosa de Trump desencadeou choque e sentimentos de traição.

“Trump disse que interromperá a guerra comercial, ele diz: ‘Não atacarei a Groenlândia’. Estas são mensagens positivas”, disse o ministro das Relações Exteriores, Lars Lokke Rasmussen, à televisão pública dinamarquesa DR.

Lokke voou na semana passada para Washington e encontrou-se com o vice-presidente JD Vance, apenas para dizer depois que os Estados Unidos não cederam na tentativa de controlar a Gronelândia.

Mas Aaja Chenmitz, um dos dois legisladores groenlandeses no parlamento dinamarquês, questionou por que razão a NATO teria voz na riqueza mineral da ilha.

“A OTAN não tem em caso algum o direito de negociar nada sem nós, Gronelândia. Nada sobre nós sem nós”, publicou ela.

Em Nuuk, onde as autoridades começaram a distribuir brochuras sobre como enfrentar uma crise, a reformada Lis Steenholdt, de 65 anos, disse que a Gronelândia e a Dinamarca foram firmes em afirmar que a ilha não está à venda.

“Você tem que acreditar no sistema. Essa é a única opção que temos agora”, disse Steenholdt.

– Enfrentando Trump –

Trump disse repetidamente que os Estados Unidos, a força chave na NATO, merecem a Gronelândia, pois seriam forçados a defender a ilha contra a Rússia ou a China, embora nenhum dos países tenha qualquer reivindicação sobre a ilha.

Dirigindo-se a Davos pela primeira vez em seis anos, Trump chamou a Dinamarca de “ingrata”, mas pareceu retirar da mesa a ameaça de ação militar.

“Não quero usar a força. Não usarei a força. Tudo o que os Estados Unidos estão pedindo é um lugar chamado Groenlândia”, disse Trump.

Trump, de 79 anos, referiu-se repetidamente à Gronelândia como Islândia no seu discurso.

O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, foi aplaudido de pé em Davos na terça-feira, quando alertou sobre uma “ruptura” na ordem global há muito defendida por Washington. O presidente francês, Emmanuel Macron, por sua vez, disse que a Europa não seria intimidada.

Trump atacou os dois líderes, zombando de Macron por usar óculos escuros em Davos, o que o presidente francês disse ser devido a um problema ocular.

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