Desde a eclosão da guerra no Sudão, a conversa sobre “cessares-fogo humanitários” tornou-se um refrão político recorrente, invocado sempre que a catástrofe humanitária atinge o seu auge. No entanto, o cessar-fogo hoje proposto surge num contexto diferente e perigoso. Segue-se ao cometimento de genocídio e limpeza étnica pela milícia Forças de Apoio Rápido (RSF) na cidade de el-Fasher em Darfur – um dos crimes humanitários mais horríveis da história moderna do Sudão e, na verdade, da história da humanidade.

El-Fasher, outrora um símbolo de diversidade e coexistência, foi transformada numa cidade devastada e esvaziada da sua população. No rescaldo deste crime grave, a comunidade internacional voltou mais uma vez a propor um “cessar-fogo humanitário” como opção. Isto exige uma leitura política cuidadosa que não se limite aos slogans morais, mas que desvende os motivos e as potenciais consequências – especialmente no que diz respeito à unidade geográfica, social e política do Sudão.

Um caminho para a paz ou uma porta de entrada para a desintegração?

Na cultura popular, existe um ditado que diz: “Se você vir um pobre comendo frango, então ou o pobre está doente ou a galinha está doente”. Este provérbio capta a essência da suspeita política legítima relativamente ao momento deste cessar-fogo.

As tréguas para fins humanitários, em princípio, destinam-se a aliviar o sofrimento dos civis e podem abrir caminho para o fim dos conflitos. No caso do Sudão, porém, o que suscita alarme é que este cessar-fogo foi proposto depois da catástrofe ter ocorrido, e não antes dela – depois de a RSF ter rejeitado categoricamente quaisquer compromissos humanitários, incluindo a protecção de hospitais e a garantia de corredores seguros para a fuga de civis.

As organizações humanitárias têm operado na maioria das regiões do Sudão, incluindo Darfur, apesar das complexidades de segurança e na ausência de um cessar-fogo legal e assinado. Isto torna a questão inevitável: porquê pressionar por um cessar-fogo agora? E no interesse de quem este cessar-fogo está sendo proposto neste momento específico?

Esta contradição abre a porta à suspeita de que o objectivo vai além das preocupações humanitárias, estendendo-se, em vez disso, à remodelação da realidade política e geográfica do país.

Cessar-fogo na experiência histórica

A história moderna está repleta de exemplos em que os cessar-fogo humanitários se transformaram de instrumentos de desescalada em prelúdios de fragmentação e secessão. No Sahara Ocidental, na Líbia, na Somália, no Iémen e no Sudão do Sul, os cessar-fogo nem sempre foram pontes para a paz; mais frequentemente, foram fases de transição para a divisão dos Estados e a erosão da soberania.

No contexto sudanês, especificamente, a Operação Lifeline Sudan, lançada pela ONU em 1989, constitui um exemplo claro de como a acção humanitária foi utilizada como ponto de entrada político, culminando eventualmente na secessão do Sudão do Sul através de um referendo que se seguiu a um longo processo de normalização da divisão.

A situação actual, no entanto, é muito mais perigosa e complexa. Não envolve um governo negociando com um movimento político que defende reivindicações nacionais, mas sim um cenário sem precedentes em que dois partidos afirmam representar “o governo” dentro de um único estado: o governo legítimo do Sudão, por um lado, e a RSF, que procura estabelecer uma entidade paralela, por outro.

A armadilha do reconhecimento político disfarçado

A negociação entre “dois governos” dentro de um estado não é apenas sem precedentes no Sudão; representa uma grave armadilha política destinada a extrair o reconhecimento de uma força de facto sob a égide de um cessar-fogo.

O mero acto de assinatura conjunta confere paridade e legitimidade ao partido rebelde, contradizendo fundamentalmente os imensos sacrifícios feitos pelo povo sudanês em defesa da unidade e soberania do Estado.

Este caminho constitui uma violação direta dos princípios fundamentais pelos quais os mártires caíram e as mulheres ficaram viúvas:

Primeiro, o princípio da unidade: a RSF violou-o ao importar elementos e mercenários estrangeiros, ao explorar o apoio externo para impor mudanças demográficas forçadas e ao tentar remodelar o Sudão de acordo com agendas que não têm qualquer relação com a vontade nacional.

Em segundo lugar, o princípio do governo unificado e da legitimidade constitucional: a prossecução de um “governo paralelo” mina directamente este princípio. Desfere um golpe nos alicerces sobre os quais o Estado se sustenta desde a independência e abre a porta ao caos político e à fragmentação institucional.

Terceiro, a unidade da instituição militar: a RSF viola-a ao receber armas e equipamento de combate de países estrangeiros e ao confiar na pilhagem e no autofinanciamento, contradizendo completamente qualquer conversa sobre reforma da segurança ou a construção de um exército nacional unificado. Na prática, estabelece as bases para múltiplos exércitos dentro de um único estado.

A ambiguidade das negociações e a ausência de transparência

A preocupação aumenta com a total falta de transparência em torno do processo de trégua. Por que as negociações são conduzidas à porta fechada? Porque é que o povo sudanês é excluído de saber o que está a ser acordado em seu nome? Como podem os Estados estrangeiros negociar em nome de um povo que sangra sob a guerra e o deslocamento? Quem tem mais direito de supervisionar os esforços de paz do que as próprias pessoas? Existem prioridades maiores do que comandar uma guerra em curso na qual todos estão envolvidos?

Mais alarmante ainda é que o partido que “mantém a caneta” no processo político é o mesmo partido que “empunha a arma”, praticando matança e limpeza étnica – um paradoxo ético e político que não pode ser aceite.

Uma leitura abrangente dos acontecimentos sugere que este cessar-fogo será mais provavelmente um ponto de entrada para o desmantelamento do Estado sudanês do que uma ponte para o salvar. Pode levar ao fortalecimento da divisão: zonas de influência, exércitos múltiplos, moedas diferentes, bancos centrais paralelos, ministérios dos negócios estrangeiros concorrentes e passaportes conflituantes – um estado sem estado e soberania sem soberania.

Esta é uma doença contagiosa que, mais cedo ou mais tarde, irá infectar todas as pessoas ao longo da costa, tanto na foz do rio como na sua nascente.

Entre o dever humanitário e a vigilância nacional

Ninguém contesta a prioridade de melhorar as condições humanitárias e de proteger os civis. No entanto, o cessar-fogo que hoje se promove pode trazer uma estabilidade temporária à custa de um preço estratégico devastador: a erosão da unidade do Sudão.

O dever nacional exige os mais elevados níveis de vigilância e cautela, para que o cessar-fogo não se transforme numa armadilha política, empurrando o projecto de desintegração do Estado. Embora devamos reconhecer plenamente que a crise tem raízes históricas profundas e acumuladas, devemos lembrar que a história não perdoa aqueles que desperdiçam a sua pátria, nem absolve aqueles que trocam a soberania nacional por ditames estrangeiros.

A esperança continua apostada na consciência do povo sudanês e na sua capacidade de se unir no enfrentamento deste momento decisivo, em defesa de uma pátria, de um exército e de um Estado – um Estado que rejeite a divisão e a tutela, aceitando apenas a vontade do seu povo através de um sistema e enquadramento que não envolva a apreensão pela força ou a imposição da realidade sob a mira de uma arma.

As opiniões expressas neste artigo são do próprio autor e não refletem necessariamente a posição editorial da Al Jazeera.

Source link

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui